Enquanto escrevia as últimas linhas do post anterior, o telefone tocou.
Entre os muitos "E aí?", "Como vai?", "Que tá fazendo?", "Tem falado com fulano?", e diversas correções de gerundismos "Não! Não diga 'vou estar imprimindo!'", recebi uma das notícias mais, mais, mais estúpidas e desnecessárias de todos os tempos.
Algumas coisas não precisam acontecer. Por exemplo, quando você está todo atrasado, vai tomar um copo de suco porque não dá tempo de comer um sanduíche, e quando vai mexer com a colher, como faz todo dia, sem problema algum, espirra suco. Tudo bem, acontece sempre, molha a toalha da mesa. Mas justo nesse dia espirra direto na sua camisa.
Ou quando você está indo pela rua despreocupado e pisa num dejeto canino.
Também quando você muda o rádio de estação bem na hora do fade-out da música, então parece que o volume está baixo, você aumenta, e nada; você aumenta mais. De repente começa outra música, o volume no último - e é um pagode.
Você vai comer numa churrascaria, e no final, ao pegar um palito, entra uma farpa no seu dedo; e de todos os palitos do paliteiro, aquele era o único que não estava completamente liso.
Infelizmente não são exemplos muito bons. A notícia que recebi beira o ridícculo, mas não pela pequeneza e mediocridade de um ato, e sim pelo absoluto sadismo de qualquer entidade superior que esteja rindo de nós no momento. Sim, cheguei à conclusão que, se existe um Deus único, ele é um cara narcisista e sádico, e fica colocando infinitas situações absurdas desde a mais irritante, como o suco que espirra na camisa, até a mais devastadora, só pra ver seus brinquedinhos se remoendo de raiva, tristeza, desespero, em diversos níveis.
"Coisa que não precisava acontecer." Falo isso sempre. "Isso é uma coisa que realmente não precisava acontecer." O pior é que acontecem sempre, de diversos tamanhos. Todas completamente desnecessárias: seu único propósito é perturbar uma pessoa específica.
Não é a simples Lei de Murphy. É o mundo conspirando pra rir de você. Como num filme ruim. Se forçar, como numa sitcom. Mas nem nos padrões americanos de humor seria engraçado. Então é só um filme ruim, mesmo. Ou um livro mal escrito. Sim, um livro ruim e mal escrito. Daqueles em que o desfecho é ridiculamente óbvio, em que fica muito claro que toda a situação está sendo armada para o único próposito de ferrar alguém no final e fazer o leitor simpatizar com o personagem, ou rir da desgraça dele. Isso é tão ridículo.
Que coisa mais desnecessária. Realmente.
Posted by Etienne at March 10, 2003 08:22 PM