Date: 2005-10-27 22:36
Subject: "Words communicate to things the spirit that the society imposes upon the words which have come to be the names for them."
Mood:

Era uma vez um grupo de crianças que moravam próximas de um grande campo gramado.

Todos os dias as crianças se encontravam no gramado para brincar. Às vezes brincavam de pega-pega, outras vezes jogavam bola, brincavam de roda, observavam algum animal interessante que surgia no gramado. Vez ou outra uma das crianças levava um jogo ou brinquedo de casa e passavam o dia com aquilo.

Certo dia, uma das crianças aprendeu a separar as sílabas das palavras. Chegou no gramado pra se encontrar com as outras crianças e foi logo contando a novidade. As outras crianças acharam aquilo interessante. "Então as palavras são feitas de vários pedacinhos, e dá pra separar tudo, que legal!" Passaram o dia pensando em palavras escabrosas e desafiando uns aos outros que as separassem em sílabas.

No dia seguinte, uma das crianças propôs que a brincadeira fosse continuada, mas poucos se interessaram em fazer a mesma coisa. Queriam fazer algo diferente, concurso de canto, o que fosse. As brincadeiras eram muito variadas.

Passado algum tempo, depois que a corrida de cambalhotas resultou em dores pelo corpo de todos, finalmente a brincadeira das sílabas voltou à tona, pela necessidade de algo calmo que pudesse ser praticado sem grande esforço físico. Dessa vez, no entanto, as crianças queriam algo mais desafiador. Puseram-se a pensar.

"Eu vi no jornal ontem uma palavra gigante! 'Inconstitucional'! Minha mãe falou que tem seis sílabas, mas eu mal consegui contar", disse uma menina num vestido rosa que, pelo estado, era usado principalmente para brincar no gramado.

Um garotinho de bermuda que lhe chegava às canelas teve então uma idéia. "Por que não brincamos de inventar palavras gigantes? Mas tem que fazer sentido! E se formar uma frase com elas é melhor ainda!"

Algumas crianças acharam a brincadeira complicada demais, e preferiram procurar o sapo que quase atropelaram enquanto davam cambalhotas no dia anterior. A maioria gostou da idéia das palavras gigantes, e começaram a brincadeira.

"O achamento da minoria sobre a complicação da brincadeira é exagerado!", soltou uma das crianças às pressas.

"Não compreendem o nível de divertimento de que se arriscam alienar.", emendou outra.

"A brincadeira é complicada mas a legalidade da inventação de palavras gigantes é muito alta!", completou uma terceira.

Entre algumas palavras longas ouvidas por aí, usadas muitas vezes em contextos e significados absurdos, e outras inventadas, mas sempre com ares de palavra séria, a brincadeira seguiu por várias horas.

"Ai, tá repetindo muito as palavras. Não dá mais pra brincar.", lamentou a menina de rosa.

"Vamos procurar palavras grandes por aí e outro dia brincamos mais!", sugeriu o garoto de bermuda comprida.

Concordaram. Procurariam as palavras gigantes em jornais, revistas e talvez até livros, seriam os campeões da brincadeira nos dias que viriam, e ainda levariam boa fama em casa por parecerem interessados nos acontecimentos. Isso combinado, juntaram-se ao outro grupo de crianças que, após muito procurar, finalmente brincava com o sapo - que sem dúvida se perguntava por que o autor dessa história não deixou que ele fugisse durante a noite. Tudo bem, senhor sapo, assim que as crianças forem pra casa, o senhor pode voltar pro lago.

O dia seguinte não foi frutífero para a brincadeira de sílabas. As crianças não acharam muita coisa em casa na noite anterior. Combinaram de ficar um dia sem ir brincar no gramado para procurar. Sem o sapo, que aprendeu a lição e fugiu durante a noite, as crianças encontraram uma outra coisa qualquer pra brincar. Os dias passaram.

"Minha afiação é estupenda!", proclamou uma garota loira ao chegar no gramado, no dia combinado para a continuação da brincadeira.

"Não será suficiente para sobrepujar a minha.", respondeu outra criança.

"Para aumentar o divertimento causado pela competição, proponho que ao fim do dia elejamos uma frase ou conjunto para ser imortalizada.", sugeriu a menina que usava o vestido rosa de novo.

E assim sentaram na grama e começaram a desfiar suas palavras gigantes. O grupo que não gostava dessa brincadeira passava o tempo bolando outras coisas pra fazer.

"A imensidão desse gramado que atravessa o horizonte é impressionante."

"A coloração verdejante dessa grama é resultado da clorofila."

"O dia está muito agradável porque não há a presença de nuvens tempestuosas no firmamento."

Passaram o dia inventando frases intermináveis sobre qualquer coisa. Vez ou outra uma criança se sentia embaraçada com aquilo tudo, ou se sentia inferiorizada com as palavras de um ou de outro, e saía da brincadeira. Ao fim do dia o grupo estava bem menor, mas continuava firme. Escolheram então uma frase e a escreveram num papel como símbolo de um dia de frases gigantes concluído com sucesso.

Com o passar dos dias, as crianças procuravam mais e mais palavras gigantes pra usar, e suas frases saíam cada vez mais elaboradas, embora geralmente com pouco sentido e exagerada pomposidade. As frases escolhidas a cada dia já enchiam a folha toda, e tiveram que ser passadas para um caderno. Muitas crianças desistiram de brincar daquilo, foi ficando muito chato, mas os que sobraram estavam tão acostumados a falar daquela forma que o faziam o tempo todo, praticamente, mesmo fora da brincadeira.

O tempo passou, algumas crianças se mudaram dali, outras chegaram e quiseram brincar também. Veio a adolescência e o grupo continuava se encontrando no gramado, agora para festejar ou namorar ou qualquer coisa assim. As palavras gigantes continuavam presentes, tão enraizadas que perduravam em suas vidas.

"Seus beijos são estupefantes, minha sorte é incomparável por você ter me escolhido entre todos os candidatos como seu namorado."

"Coloca aí um som extraordinário que meu nível alcoólico tá elevado e eu quero dançar até perder a sensibilidade dos membros inferiores!"

O grupo das palavras gigantes se tornou adulto, ainda falando incessantemente suas palavras enormes, facilmente substituidas por outras de menos sílabas ou simplesmente desnecessárias. Vários cadernos se empilhavam com frases e frases eleitas e anotadas ao fim de cada dia.

Finalmente, decidiram que aquilo a que tinham dedicado suas vidas merecia um monumento maior do que a pilha de cadernos. Mandaram imprimir os cadernos e encadernar com capa dura. Construiram no antigo gramado um enorme prédio, encheram de estantes e colocaram os cadernos impressos lá dentro. Depois aumentaram o prédio e construiram outros menores em volta. Um grande monumento à brincadeira das palavras gigantes, em toda sua desnecessidade, todo o seu significado vazio.

A esse monumento deram o nome de Escola de Comunicações e Artes.

Posted by Etienne at 10:36 PM | Comments (2)


Date: 2005-10-12 00:50
Subject: "We'll surely avoid scurvy if we all eat an orange."
Mood:

One of the many stories I want to write someday should start with a man facing a terrible trial, losing nearly all he had, reaching the verge of suicide, and finally being saved by another guy, who would say obvious things like "while there is life, there is hope" and "you must be strong, you will get over this and everything will be better", then the man would give up and try to rebuild his life.

At this point, the second guy would start facing trials of his own. The story would be solely one disgrace after another for him, and he would lose everything he had. Still, he would stand strong and have faith, better days would come, even if the next night would have to be spent under a bridge, or on a park bench.

When it seemed all had been lost but hope, I would find a way to make him lose yet something else, then lose some more - then he finally would lose his hope. As he contemplated suicide, he would remember that man from the story's beginning, whose death he prevented, and think of how poetical this all was, that he had reached the same point from where he pulled that man. For a brief moment he would hope someone would pull him as well, and at that exact moment he would see, oh!, that very man.

That very man would prevent the suicide by stabbing him with a rusty knife repeatedly. As the stabbed man agonized on the way to death, the stabber would say that his life never got better after their first meeting, no matter what he did, but he never again had the strenght to try to take his own life, and he blamed his victim for it.

As people start to arrive at the scene, the stabbed man dies; the story ends. We never get to know what happens to the murderer.

* * *

If there is such a thing as reincarnation, on my next life I want to be a Masamune Shirow calendar.

Since I am not a calendar in this life, I would be happy enough being a pirate. It is about two centuries too late for that, though.

I would love to be a blacksmith, too. Two centuries late as well.

Or I could be a blacksmith and a pirate and a good man, and be called Will Turner and look a lot like Legolas. Life would be grand.

But what I really, really wanted was to be a pokémon trainer in the pokémon world.

* * *

One thing in the English language that makes little sense to me is "to try and". "I will try and jump over a building". No: I will try; I might fail. If I fail, I will not have jumped over a building. So, "I tried, but did not jump over the building". If I said "I will try to jump over a building", however, all is well: I will try, I might fail; I will not (1) try, and (2) jump over a building. It is one action - try to jump -, not two - try and jump.

One type of headline, however, bothers me to no end, more than "try and". "Intel, AMD show their new processors"; "Sony, Nintendo launch new consoles"; "John, Mary get married". Why the blazes? Did they spend all their "and" stocks in the "try and"? Whenever I see something like "Sony, Nintendo launch" I expect it to be "Sony, Nintendo's main rival, launches new console" or similar: one item followed by short explanation between commas, followed by rest of sentence. If there are two elements and no explanation, an "and" should be used. Such confusion for absolutely no reason.

("It is because 'and' is a long word and there is often limited space for the headlines in newspapers!". Fine. The CNN ticker has limited space, too?)

Then there is "should of" and "could of". Someone said "I could've done it"; someone else was partially deaf, heard it wrong and wrote "I could of done it", and millions and millions of people accepted it. This is on the same level as there, their and they're. Feh.

* * *

This post is bitter. It would not be so if I were a calendar, pirate, blacksmith or pokémon trainer.

Posted by Etienne at 12:50 AM | Comments (2)