Archive for September 29th, 2005

Quando começou a novela “Corpo Dourado”, matérias de cadernos de televisão em diversos jornais chamaram-na de “esquizofrênica”, por parte da história se passar numa fazenda enquanto todo o resto da trama ter lugar na praia. “Onde há uma fazenda de gado tão próxima a uma praia, pra que os dois lugares estejam tão ligados?”, perguntavam.

Eis que veio “O Clone”, em que metade do elenco vivia no Marrocos e metade no Rio de Janeiro. Misteriosamente, o intercâmbio era constante: cariocas de toda estirpe freqüentemente visitavam “o Marrocos” (que tinha só três ruas e uma casa representada por duas grandes salas e um jardim) e marroquinos vinham morar no Brasil (ou melhor, no Rio, no mesmo bairro do resto do elenco) e vez ou outra traziam a família para passar umas semanas.

Agora temos “América”: o subúrbio genérico e nojento do Rio, o interior country festeiro de São Paulo, o deserto mexicano e a menor e mais ao norte capital brasileira, Miami. Os dois locais mais próximos entre esses quatro estão a mais de 600Km um do outro. O intercâmbio constante permanece. Jornal nenhum abriu a bico.

“Preciso de dinheiro; vou trabalhar ilegalmente nos Estados Unidos.” Passagem para o México, dinheiro para os traficantes (U$9000, dizia o Yahoo! Notícias à época, num link que não existe mais), falha, volta pro Rio, tenta de novo: passagem para o México, dinheiro para os traficantes. De onde veio tanto dinheiro?

Cruza o deserto mexicano, cruza o Rio Grande, cruza o deserto americano, e chega em Miami. Em Miami! Três fuso-horários pra cá! O caminho mais curto passa por Texas, Lousiania, Mississipi e Alabama, depois cruza a Florida de ponta a ponta! Bons deuses, era mais fácil acreditar no Marrocos.

“Papai, não agüento mais a mamãe! Quero sair dessa casa! Vou pra Miami!” Não há “casa de amiga”, não há hotel ou “apart-hotel” (que as novelas adoram), não há um flat alugado em outro bairro, não há uma casa na praia ou no campo ou outra cidade qualquer, não há casa de parentes, não há outra cidade no Brasil ou nos EUA, e não há Europa: não agüento mais a mamãe, vou pra Miami.

“Arrumei amante nova, vou levá-la pra uma grande viagem.” Novamente não há “Angra”, “Búzios”, Campos do Jordão, Florianópolis, e o sertão finalmente virou mar; Londres foi dominada pela novela das sete, e o Marrocos fechou as portas a visitantes brasileiros; México é só uma vila e um deserto. Vamos, pois, para Miami. Lá onde passamos as últimas quatorze férias de verão e metade da cidade (de dois mil habitantes) nos conhece e somos chamados pelo nome, em português, onde quer que estejamos (mesmo que seja sempre no único cais, na única pousada, no único restaurante, na única casa de dança, no único shopping center ou na única rua da cidade). Certamente ninguém vai notar coisa alguma.

“Ele arrumou uma amante nova. E eu, amante velha, como fico? Quero meus direitos!” … Ponto final.

“Nosso fio robô nossas terrinha, porque nóis num sabe lê. Nóis só queria fica em páiz aqui, prantando nosso mio e andando de carro de boi, mesmo que teja no meio de uma das região mais disinvorvida do interior do istado de Sum Paulo, na bera de umas das maior cidade do país.” Ponto final, de novo.

“Ouvi dizer que minha namorada beijou um cara. Imediatamente larguei dela e vou me casar com essa moça, que é uma santa!” Devia largar a namorada por ser de uma suburbanice/carioquice que só encontra par na… no… em todos os outros personagens daquele núcleo. A moça santa, que é either testemunha de Jeová or estereótipo tirado de novelinha de época das seis, na verdade “é um capeta” e misteriosamente ninguém, ninguém nota. Esse fenômeno deve ter relação com a gigantesca população de cegos que habita a novela, sob a tutela do líder populista carismático Jatobá.

“Telefonema dos Estados Unidos! Chama o Jatobá que ele fala estrangeiro.” (Ponto, ponto, ponto, pausa pra tomar ar, desliga o microfone pra platéia não ouvir as risadas e/ou os lamentos e/ou os gritos de dor.) Estrangeiro é uma língua que engloba as palavras “hi”, “hello” e “honey” (em seu dialeto de Miami), e “haram” e a expressão “Insh’Alla” (no dialeto de Marrocos); de resto, é muito parecido com o carioca, língua falada no Brasil. Ou o subúrbio carioca é burro a esse ponto, mesmo.

Termino esse post com o pequeno mapa abaixo. Essa é, sem dúvida, a forma como Gloria Perez enxerga o mundo.

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