Archive for 2008

There is beauty in mastering a craft, no matter how arbitrary or useless.

Digg led me a few days ago to a video of a young boy playing “The Devil Went Down to Georgia” on Guitar Hero, on Expert mode, and getting 100% on everything. I was expecting to see Sheng Long at the end! An amazing feat, no doubt.

The comments on Digg were most in the line of “great, now get a life”, “go play a real guitar instead” and “find something you’re good at that’s actually useful”. I assume most of this bitterness was fueled by envy; in fact, I hope so, because people on Digg have no business whatsoever complaining that someone is wasting time with something useless.

One comment amidst the sea of “get a life” caught my attention. “Do you tell people playing Call of Duty or Medal of Honor to go fight in a real war instead?”, or something in that line. Extremely valid, I believe. I never played Guitar Hero or any other instrument-based game, and I have very little contact with gaming communities, but I see Guitar Hero gets some unfair attacks. “Quit playing Stalker and go loot the real Prypiat!”, “Drop that Tetris and go lay some real bricks to make a wall!”.

No matter. What I really wanted to talk about was a quote from John Normal Collie I remembered as I read those comments:

Every man has one thing he can do better than anyone else – and usually it’s reading his own handwriting.

I am not sure I found this thing I can do better than anyone else yet. I am not even sure I am the best at reading my own handwriting – depending on my mood when I wrote it, it can be a challenge even to myself. But I hope to find this thing I am so good at, someday. I hope my few readers find it, too. May they be more useful than playing “The Devil Went Down to Georgia” on Guitar Hero, but if not, may they be at least that impressive, and let us all be proud of them. Because we can always type.

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Justin made me do it.

“I was, perhaps, the more forcibly impressed with it, as he gave it, because, in the under or mystic current of its meaning, I fancied that I perceived, and for the first time, a full consciousness on the part of Usher, of the tottering of his lofty reason upon her throne.”

Rules:
* Grab the book nearest you. Right now.
* Turn to page 56.
* Find the fifth sentence
* Post that sentence along with these instructions
* Don’t dig for your favorite book, the coolest, the most intellectual. Use the CLOSEST.

I did have to dig it from under twenty mangas, but I played honestly: this was the book nearest me (and mangas are not books, c’mon). “Edgar Allan Poe – Selected Poems & Tales”, illustrated by Mark Summers, introduction by Neil Gaiman. Page 56 is right in the middle of “The Fall of the House of Usher”. And I am extremely glad I never found a place for this behemot in my shelves, because the other nine books near me are dictionaries.

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“Ler é mais importante do que estudar” é uma frase do Ziraldo que eu tinha em uma camiseta há alguns anos, quando o livro Flicts foi relançado junto com seu CD-ROM (quando CD-ROM era uma grande coisa – bons tempos, sinto falta das enciclopédias em CD). Houve um grande hype sobre o CD e sobre o próprio Ziraldo, e essa frase ficou de símbolo. Acho que havia uma campanha pela leitura no meio desse hype, mas não foi muito longe.

Eu fui no lançamento do CD-ROM, comprei uma cópia, comprei um Flicts impresso e o Ziraldo autografou. Pois é, tenho um livro autografado, talvez valha muito dinheiro em algumas décadas. Pena que não faça idéia de onde está. O sentimento de culpa por isso é enorme. Mas não é de Flicts que quero falar. É da frase.

Ontem eu prestei vestibular. Fuvest. Eu já passei uma vez e já me formei na USP, então não tinha absolutamente pressão alguma. Não acho que queira passar mais cinco anos indo até lá diariamente, também. Já basta uma vez. Mas prestei assim mesmo, e foi hilário.

Algumas perguntas fazem muito sentido. Eles apresentam uma situação qualquer, um texto, um gráfico, e pedem para escolher qual das cinco afirmativas abaixo reflete o texto ou gráfico. Achei esse tipo de questão ótimo: requer algum conhecimento mas depende muito mais da capacidade de interpretação. “Mas se fossem todas assim, todo mundo passaria.” Será?

Não são todas assim porque isso é coisa de Enem, e Enem é exame de brincadeira, não serve pra entrar na USP. Então, depois de umas cinco perguntas dessas, que me deixaram bastante animado, trombei com uma bobagem qualquer de química. “O elemento Bromo, da mesma coluna do Cloro na tabela periódica, se combinado com um eteno, resulta no seguinte composto químico:” … E eu sei lá? Eu poderia até argumentar que a última vez que ouvi falar de tabela periódica foi há oito anos, mas, pra ser sincero, eu nunca ouvi falar de eteno. Deve ser coisa que só ensinam no cursinho (e no Colégio Bandeirantes). Aquelas coisas que um professor todo extrovertido ensina com uma musiquinha, “Peguei o bromo com eteno um crime”, qualquer bobagem assim. Acho que chutei que resultava em 1,2-dibrometano. Sei lá o que é isso. O Cataflam é diclofenaco potássico, e eu nunca precisei saber nada muito além disso sobre química pra permanecer vivo.

Matemática foi similar. Algumas questões faziam bastante sentido antes de chegar às alternativas. “Eu tenho três maçãs. Uma delas tem um bicho. Quantos radianos tem a porção de maçã que o bicho comeu? a) raíz de três sobre dois; b) quatro vezes raíz de dois sobre cinco”, etc. Fiquei me perguntando se essas questões não tinham uma alternativa F oculta, acessível através de uma combinação secreta de quadradinhos preenchidos na folha óptica, que seria sempre “42″. “Dados os pontos A e B num plano X, sabendo que formam um ângulo R de tangente raíz de três sobre dois, qual a área do hexágono central? a) blá; b) blé … f) 42″. Seria essa e pronto.

Mas a melhor foi a pergunta sobre história da África. “O mapa acima mostra a divisão de poder entre as tribos no início do século XVIII. Com base nestas informações, pode-se dizer que: a) o atual conflito de fronteiras no Congo deriva das diferenças religiosas entre os grupos étnicos que habitavam a região à época da colonização européia; b) a Etiópia manteve sua forma inalterada; c) a atual guerra civil na Costa do Marfim é conseqüência da exploração de suas jazidas de prata por uma minoria étnica”. Eu não sei. Não faço a menor idéia. No meu tempo, só estudávamos história do Brasil e da Europa. Veja só, nem a história dos EUA eu estudei. Nem do Japão e da China, que são muito mais interessantes. Nem dos vizinhos sulamericanos. Por que raios eu saberia que grupos étnicos dominaram as minas de prata africanas no século XVIII? Ora, tenha dó.

Em todo caso, isso finalmente me leva de volta à frase do Ziraldo. No Ginásio, eu fiz um trabalho sobre a África. Foi na época em que o Zaire mudou de nome para Congo, pra ficar igual ao seu vizinho que já se chamava Congo. Para fazer o trabalho, eu li alguns livros sobre a África, alguns verbetes relacionados em enciclopédias, algumas notas de jornal para a história mais recente, e até peguei algumas informações na internet. Pra complementar, na abertura do trabalho, antes de qualquer coisa, coloquei a poesia “Vozes d’África”, de Castro Alves. Na capa, o mapa mundi com a África representada por uma mancha de tinta que escorria de um tubo de nanquim tombado. Fiz um trabalho tão exemplar que, nas palavras da professora, tirei dez porque não poderia tirar vinte.

E eu não sabia absolutamente nada sobre a África antes de fazer aquele trabalho. Só sabia que tinha em casa alguns livros que falavam sobre o continente. Sabia que havia um conflito no Zaire porque sempre lia as manchetes do jornal e o que mais me chamasse a atenção no caminho até a página de quadrinhos. Sabia que um poeta brasileiro havia escrito algo sobre a África porque li outra poesia dele e alguns comentários sobre ele em outro lugar qualquer. Eu não sabia nada sobre a África, mas sabia onde estava a informação: fui até lá e extraí, para aquele fim específico, o que eu precisei, e foi ótimo. Mais de dez anos depois, não lembro de quase nada daquilo, mas ainda sei onde encontrar a informação novamente – mesmo que seja num velho arquivo .doc que contém o texto do meu trabalho.

O mesmo vale para os radianos de maçã que o bicho comeu. Eu não sei quantas raízes de três tem a macieira, mas sei que numa estante num quarto nos fundos da casa tem um livro sobre trigonometria que um professor de matemática muito atencioso me deu, muitos anos atrás, e que eu li igualmente há muitos anos. Não lembro mais nada, mas para calcular a área do hexágono, bastaria pegar aquele livro, talvez alguns outros, e em uma hora eu responderia com precisão. Eu sei como os átomos se combinam, mesmo que não saiba o que é um eteno: uma olhada rápida na descrição de um e na tabela periódica e eu diria o que ele forma quando se une ao bromo. Eu não lembro se moluscos têm exoesqueleto de quitina, mas não precisaria de mais que cinco minutos pra determinar se isso os colocaria acima ou abaixo dos anelídeos na cadeia evolutiva.

Tudo isso porque eu sei que a informação está lá. Eu sei onde ir para encontrá-la. E eu só sei porque eu trombei com algo similar algum dia enquanto lia outra coisa qualquer. Como eu sabia sobre o conflito no ex-Zaire porque gostava de Dilbert e Níquel Náusea. Eu nunca precisei decorar a Enciclopédia Larousse porque eu sabia que ela sempre estaria ali na estante, e eu sabia como encontrar qualquer coisa nela. Me dê a prova da Fuvest, me tranque no quarto ali no fundo da casa com os livros (e sem internet, importante frisar), e antes do prazo limite eu terei uma prova digna de entrar em qualquer curso, sem gastar anos cantando musiquinhas num cursinho pra atolar minha cabeça de informação que não tem um único propósito na existência do universo além de talvez ser útil em uma pergunta do vestibular. Porque eu aposto que jamais verei novamente, até meu último suspiro, o 1,2-dibrometano.

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In a MMORPG, you pay monthly (American model) or buy exclusive items (Korean model) and control a character in a big world where most of the action is killing computer-controlled enemies that spawn without much regards to realism, and sometimes killing other people’s characters for sport. There are also endless searches for better items to make these actions easier, and sometimes quests that, although often repetitive, may give the game’s world a semblance of history, background, and evolution (even if the evil demon you killed at the end of your epic journey just re-spawns half an hour later to be killed by the next player on an epic journey).

People say this is a tremendous waste of time. Grinding for levels and items in a world that does not exist, spending so much time socializing and competing with people you may never see personally. For these reasons, some consider MMORPGs the bottom-end of the gaming spectrum. “Paying to fight endlessly for a goal that can never be reached.”

Little is said, however, about online First Person Shooters. Spending your whole weekend playing Team Fortress 2 is perfectly healthy. And the game has no story whatsoever, it is just groups of people trying to kill each other. “It takes skills, MMORPG is just about who grinds the most”, but both have a learning curve, and in a MMORPG you can get help from other players; in FPS, your skills are yours alone to improve. “It is free, MMORPG has a monthly fee”, but most MMORPGs run on standard hardware while FPSs keep demanding new video cards, better mouses, better keyboards, XBoxLive, etc – because few FPSs have the longevity of an MMORPG (“I still play Quake!”, fine, other people still play Meridian59, and it is older).

Still, I am not pitting FPSs against MMORPGs. People play other games. I know people who put equally unhealthy numbers of hours into Winning Eleven or Madden. Perfecting a speed-run through some Metroid game probably takes two- or three-digits hours as well. A perfect score in all levels of LocoRoco can go well into twenty hours. The average time to reach the 10th level of Dungeon Maker and slay the wandering demon is 60 hours, then another 80 to get 100% items and reach the 20th level for bragging rights (on GameFaqs, as no one is really keeping track or paying attention). Pokemon games need to be played multiple times if the player wants a complete Pokedex and a good team for matches against other players – and there are two dozen Pokemon games. A modern Final Fantasy game takes some 30 hours to finish, older ones took longer. Some people play endless puzzle games over and over for months seeking a better score. Contra, Battletoads and any other game from the generation where companies used frustration tactics to prevent players from beating the game too fast occupied kids’ entire childhoods. Fallout kept me for some 40 hours of playing by the rules, saving, reloading, playing against the rules for fun, reloading back, grinding for money and items – and I never even finished the game. Fighting games have people practicing them like they were sports, multiple hours every day; the same goes for real-time strategy games like Starcraft. GTA games and other open-ended games have people playing well into 200 hours. Morrowind and Oblivion get probably even more than that, as people replay with different classes or using mods. The Sims is probably at par with Solitaire in amount of hours put into it globally. Solitaire itself needs nothing said of it.

A match of tabletop Risk (known in Brazil as “War” – which makes more sense, I must say) can go well into the night, as many other board games. Pen-and-paper RPGs have stories and campaigns running for months or even years. Magic: The Gathering and a hundred other collecting-card games see astonishing time, effort and money put into them as well. Miniature tabletop games like Warhammer 40k take so much time and money for preparation they blend into the hobby field. People play snooker and cards among friends and family, without betting anything, for hours on end.

Everybody plays all sorts of games for incredible amounts of time, most often gaining nothing from it beyond simple fun. MMORPGs are not the worst case in this field. If their players find them fun, so be it. We are all equally “wasting time” with our fun.

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A Flines escreveu um post dia desses que me lembrou de um assunto sobre o qual eu queria escrever já há algum tempo. Pra ser sincero, não me lembrou, eu já tinha o assunto em mente independente do post dela, mas deu um impulso pra escrever de fato. O comentário do Calebe perguntando se eu escreveria novamente dia 29/09 deu outro impulso: se eu caísse na regra que ele notou, teria que postar depois dia 30/10 e não saberia o que fazer em novembro; melhor que seja apenas uma coincidência de duas datas, não de três.

Não sei se as crianças de hoje ainda são como as do meu tempo, mas quando eu estava no Jardim, aquela fase da pré-escola antes de pré-primário propriamente dito, que não tem nomenclatura padronizada – mas na verdade isso perdurou até a terceira série (“do fundamental”, necessário dizer hoje em dia) -, as crianças gostavam de colocar na boca coisas que não deviam.

Observação, eu fiz Jardim 1 e 2, depois Pré; algumas escolas têm Pré 1, Pré 2, até Pré 3. Aliás, “Pré”, notei agora, é uma palavra engraçada.

Antes de falar das coisas que as crianças colocavam na boca, vou mencionar o Yakult. Naquele tempo, havia propaganda de Yakult na TV, e não havia Chamyto, Batavito e outras cópias. Havia Taffman-E; quem tomava Taffman-E era mais homem, mais adulto, que quem tomava Cutty Sark (a única marca de whisky que eu conhecia na época). Taffman-E era a coisa que dava pêlo no peito. Se uma mulher tomasse um só que fosse, já era, podia jogar fora sua lingerie e colocar uma letra O no final do nome.

Pois então, havia o Yakult, com propaganda na TV, único leite fermentado com lactobacilos vivos disponível no mercado. E a propaganda dizia que “um Yakult por dia” melhoraria a flora intestinal (precisei crescer mais uns cinco anos pra deixar de achar “flora intestinal” engraçado, mas ainda imagino um campo florido aparecendo numa chapa de raio-X toda vez que escuto). O problema era o “um Yakult por dia”: tomar dois Yakult no mesmo dia resultaria em morte certa. Quando eu soube que espiões carregavam cápsulas de veneno para se matar caso fossem capturados, eu me perguntei se entre as possíveis cápsulas havia uma garrafinha com dose dupla de Yakult. Incrivelmente, eu não era o único com essa idéia: todas as crianças com que tive contato chegavam à mesma conclusão ao ver a propaganda. E discutíamos o perigo, e bolávamos maneiras de evitá-lo: manter um calendário próximo à geladeira para marcar se já havíamos tomado Yakult aquele dia, escrever em cada garrafinha o dia da semana, por aí vai. Havia quem mastigasse o Yakult para matar os lactobacilos. Alguns diziam, com uma expressão de terror, “prefiro não tomar nenhum, nunca”.

Imagino que tenha sido influência das coisas que não se podiam colocar na boca, pra voltar ao assunto original. Eu mordia o lápis, até me dizerem que o lápis era veneno. “A madeira, o grafite ou a tinta em volta do lápis?”, eu lembro de perguntar uma vez. “Todos eles!”, me responderam. Quando ganhei uma lapiseira, não tentei mordê-la, por medo de estragar (só eu tinha lapiseira na classe, não podia arriscar) mas coloquei na boca uma vez. “Tira da boca, é veneno!” Puxa, plástico também fazia parte das coisas fatais.

“Por que eu preciso lavar as mãos antes de comer se vou usar talheres?” “Porque o bichinho que está na sua mão anda pelo talher até a comida e entra na sua boca.” Bichinho? Era uma informação nova, porque o que eu sabia até aquele ponto é que comer alguma coisa que caiu no chão ou pegar diretamente na comida era proibido porque o chão e todas as outras coisas estavam cheias de veneno. Por muitos anos eu abri a torneira, lavei a torneira, lavei as mãos e fechei a torneira, pra evitar encher as mãos de veneno ao tocar na torneira de novo. E agora o veneno onipresente era um “bichinho” e andava pelos meus talheres. Devia ser um lactobacilo vivo, talvez até dois.

Massa de modelar, giz de cera e canetinhas hidrográficas vinham com um “atóxico” escrito na embalagem. “Significa que não é tóxico, não mata.” “Então pode comer?” “Não, faz mal.” O mundo então era dividido entre as coisas que matavam e as que só colocariam no hospital. Eu sinceramente não entendia como podia existir alguém vivo num mundo onde todas as coisas eram cobertas de veneno, mulheres viravam homem com uma única garrafinha de uma bebida disponível livremente no mercado, e as coisas que apenas faziam mal precisavam trazer isso impresso na embalagem. “Fique tranqüilo, se comer esse giz de cera você não vai morrer.” O mundo era um lugar tremendamente dramático.

Não sei bem em que ponto descobri que não era tudo tão desesperador assim, mas o estrago provavelmente já estava feito. Aliás, dia desses eu esqueci que tinha tomado um Yakult de manhã e tomei outro à tarde. Se eu desaparecer misteriosamente, já sabem o que foi.

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