Archive for July 27th, 2008

Uma coisa que me irrita profundamente no Brasil é a mania de pegar um termo composto em inglês e dizer só a primeira palavra. Naquele contexto específico funciona, mas em qualquer outro não faz o menor sentido.

Depois de comprar uma TV “HDTV-Ready” (com 768 linhas), querem um sistema de som que combine – vão atrás de um “home”. “Home”! É um lar que você quer, pra colocar sua TV nova? É um motor-home, pra andar pelo país mostrando a TV nova? Não, é um “home-teather” – mas, veja só, em inglês a parte que importa é a segunda palavra.

Mas as crianças não se importam muito com o tamanho da TV, e preferem brincar no parque. Vão no “play”. Parque, parquinho? Não, “play-ground”, como se português não tivesse uma palavra adequada pra descrever uma área com areia, balanço, gira-gira, gangorra, trepa-trepa. Sai o parquinho, entra o “play-ground”, e com isso sai o “ground”. Traduzindo mecanicamente, o “chão de brincar” passa a ser só “brincar”. Vamos todos descer pro brincar! Ao menos o balanço ainda não teve o destino do parque, ou logo as crianças sairiam do trepa-trepa pra se jogar num swing.

Os pais, ocupados, precisam trabalhar enquanto as crianças se divertem no “play”, então levam o “note”. Um papelzinho com uma anotação? Uma cópia do programa Microsoft Note? Não, é o “notebook”. Poderiam dizer “laptop”, daria na mesma – mas em pouco tempo viraria “lap”. “Vou levar meu lap”. Vai? Eu prefiro deixar meu colo em casa quando saio. Também não gosto de tomar voltas de quem está na frente quando aposto corrida.

Aqui cabe um em português, também: “micro”. Supostamente de “micro-computador”, mas a última vez que ouvi “micro-computador” foi em referência a um Apple ][e, com tela verde, 16 kilobytes de memória e disquete de 5″1/4. Poderiam dizer “computador” ao invés de “micro”. Poderiam dizer “PC” que todos os envolvidos saberiam o que é. E o que é pior, eu já vi “micro” ser usado pra forno de microondas.

Falando em “PC”, no Brasil o PlayStation (1, 2 ou 3), diferente de todo o resto do mundo, e igual ao parquinho, chama “Play”. “Destravei meu Play2″. Fico feliz de o PSP não ser popular por aqui, ou viraria “Play-Pê”. “GameCube” é muito complicado, então os poucos que o tinham jogavam “Nintendo”; problema algum, até há pouco tempo, porque o NES nunca foi popular aqui, mesmo, e o SNES era o “Super” – disfarçado, virava o Nintendo Clark Kent -, mas agora saiu o DS: como ninguém disse que significa “Dual Screen” (ou viraria “o Dual”), chamam de Nintendo também. Brasileiro só fala letra se é nome de partido.

O que me consola um mísero pouquinho é que em Portugal videogame (aliás, como não abreviaram isso pra “video”, aqui?) é feminino. “Estava a jogar minha PlayStation”. Vá lá, “station” é estação e “box” (do XBox) é caixa, mas é muito estranho. “A GameBoy” simplesmente não presta, e GameCube não traduz pra “Cuba de Jogo”.

Abro exceção pra “shopping” (center), porque existe há mais de vinte anos. Mas se continuar assim vou começar a aplicar ao português também: pra não molhar a mesa, coloque seu copo sobre esse porta; se está chovendo, leve um guarda.

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