Uma coisa que me irrita profundamente no Brasil é a mania de pegar um termo composto em inglês e dizer só a primeira palavra. Naquele contexto específico funciona, mas em qualquer outro não faz o menor sentido.

Depois de comprar uma TV “HDTV-Ready” (com 768 linhas), querem um sistema de som que combine – vão atrás de um “home”. “Home”! É um lar que você quer, pra colocar sua TV nova? É um motor-home, pra andar pelo país mostrando a TV nova? Não, é um “home-teather” – mas, veja só, em inglês a parte que importa é a segunda palavra.

Mas as crianças não se importam muito com o tamanho da TV, e preferem brincar no parque. Vão no “play”. Parque, parquinho? Não, “play-ground”, como se português não tivesse uma palavra adequada pra descrever uma área com areia, balanço, gira-gira, gangorra, trepa-trepa. Sai o parquinho, entra o “play-ground”, e com isso sai o “ground”. Traduzindo mecanicamente, o “chão de brincar” passa a ser só “brincar”. Vamos todos descer pro brincar! Ao menos o balanço ainda não teve o destino do parque, ou logo as crianças sairiam do trepa-trepa pra se jogar num swing.

Os pais, ocupados, precisam trabalhar enquanto as crianças se divertem no “play”, então levam o “note”. Um papelzinho com uma anotação? Uma cópia do programa Microsoft Note? Não, é o “notebook”. Poderiam dizer “laptop”, daria na mesma – mas em pouco tempo viraria “lap”. “Vou levar meu lap”. Vai? Eu prefiro deixar meu colo em casa quando saio. Também não gosto de tomar voltas de quem está na frente quando aposto corrida.

Aqui cabe um em português, também: “micro”. Supostamente de “micro-computador”, mas a última vez que ouvi “micro-computador” foi em referência a um Apple ][e, com tela verde, 16 kilobytes de memória e disquete de 5″1/4. Poderiam dizer “computador” ao invés de “micro”. Poderiam dizer “PC” que todos os envolvidos saberiam o que é. E o que é pior, eu já vi “micro” ser usado pra forno de microondas.

Falando em “PC”, no Brasil o PlayStation (1, 2 ou 3), diferente de todo o resto do mundo, e igual ao parquinho, chama “Play”. “Destravei meu Play2″. Fico feliz de o PSP não ser popular por aqui, ou viraria “Play-Pê”. “GameCube” é muito complicado, então os poucos que o tinham jogavam “Nintendo”; problema algum, até há pouco tempo, porque o NES nunca foi popular aqui, mesmo, e o SNES era o “Super” – disfarçado, virava o Nintendo Clark Kent -, mas agora saiu o DS: como ninguém disse que significa “Dual Screen” (ou viraria “o Dual”), chamam de Nintendo também. Brasileiro só fala letra se é nome de partido.

O que me consola um mísero pouquinho é que em Portugal videogame (aliás, como não abreviaram isso pra “video”, aqui?) é feminino. “Estava a jogar minha PlayStation”. Vá lá, “station” é estação e “box” (do XBox) é caixa, mas é muito estranho. “A GameBoy” simplesmente não presta, e GameCube não traduz pra “Cuba de Jogo”.

Abro exceção pra “shopping” (center), porque existe há mais de vinte anos. Mas se continuar assim vou começar a aplicar ao português também: pra não molhar a mesa, coloque seu copo sobre esse porta; se está chovendo, leve um guarda.

4 Responses to ““Mó nu pa tropi abençoá po De.””
  1. Calebe says:

    Apesar de eu sempre dizer as coisas por extenso, nunca tinha reparado nessa idiossincrasia brasileira. Acho que é o calor dos trópicos; já dizia o outro como esse sol enche a gente de preguiça.

    Mas sério mesmo que o NES nunca foi popular por aqui? Talvez eu tenha uma visão distorcida porque os meus pais já tiveram uma locadora de vídeo (eis aí outra mutilação) e de cartuchos de videogame. (“Cartuchos de videogame.” Só não me sinto mais ancião porque você citou o Apple ][.)

  2. Flines says:

    Já me mandaram esquentar coisa no micro.

    Mas olha que legal, o Wii não deixa ninguém avacalhar o nome. =D
    Ah, não, pera. Tem os que chamam de Nintendo Uai. Putz.

  3. lorneau says:

    O NES em si não foi nem de longe tão popular quanto o Master System – a Nintendo só teve presença no Brasil quando fez parceria com a Gradiente e com a Playtronic, já na época do SNES. O que existia muito por aqui era console “compatível” com NES, como o Phantom System (que, se não me engano, tinha entrada pra cartuchos de alguma versão de Atari, também). Não lembro se foi uma jogada da Nintendo, de permitir que todo mundo fizesse aparelho que usava seus cartuchos, ou se era tudo pirataria. De um jeito ou de outro, eu só fui ver um NES de verdade no século XXI.

    O embate Sega-Nintendo das eras de 8 e 16-bits é uma das poucas coisas em que o Brasil está mais perto da Europa que dos EUA. É engraçado ver colecionadores do mundo todo comprando e vendendo no eBay jogos da Tec-Toy.

  4. Calebe says:

    Meu Deus. Aquela época foi muito divertida.

    Mas você tem razão: quando eu digo “NES”, na realidade me refiro a todos aqueles consoles apócrifos que aceitavam os cartuchos de NES (e alguns também os de Famicom: era para isso que servia a outra entrada, quando existia). Curiosamente, os cartuchos de Phantom System não entravam no modelo original do NES, por serem grandes demais. (Não que isso nos impedisse de desmontar os cartuchos, tirar o adaptador original e colocar outro… A tecnologia de então era tão tosca.)

    Eu pessoalmente nunca soube de que maneira a Gradiente lançava jogos da Nintendo de maneira tão proprietária assim; mas o que lamento é que a empreitada da Playtronic não tenha vingado no Brasil. A Estrela acabou desistindo e, depois, a própria Gradiente. Quem disse que pirataria não prejudica a gente diretamente?

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