“Ler é mais importante do que estudar” é uma frase do Ziraldo que eu tinha em uma camiseta há alguns anos, quando o livro Flicts foi relançado junto com seu CD-ROM (quando CD-ROM era uma grande coisa – bons tempos, sinto falta das enciclopédias em CD). Houve um grande hype sobre o CD e sobre o próprio Ziraldo, e essa frase ficou de símbolo. Acho que havia uma campanha pela leitura no meio desse hype, mas não foi muito longe.
Eu fui no lançamento do CD-ROM, comprei uma cópia, comprei um Flicts impresso e o Ziraldo autografou. Pois é, tenho um livro autografado, talvez valha muito dinheiro em algumas décadas. Pena que não faça idéia de onde está. O sentimento de culpa por isso é enorme. Mas não é de Flicts que quero falar. É da frase.
Ontem eu prestei vestibular. Fuvest. Eu já passei uma vez e já me formei na USP, então não tinha absolutamente pressão alguma. Não acho que queira passar mais cinco anos indo até lá diariamente, também. Já basta uma vez. Mas prestei assim mesmo, e foi hilário.
Algumas perguntas fazem muito sentido. Eles apresentam uma situação qualquer, um texto, um gráfico, e pedem para escolher qual das cinco afirmativas abaixo reflete o texto ou gráfico. Achei esse tipo de questão ótimo: requer algum conhecimento mas depende muito mais da capacidade de interpretação. “Mas se fossem todas assim, todo mundo passaria.” Será?
Não são todas assim porque isso é coisa de Enem, e Enem é exame de brincadeira, não serve pra entrar na USP. Então, depois de umas cinco perguntas dessas, que me deixaram bastante animado, trombei com uma bobagem qualquer de química. “O elemento Bromo, da mesma coluna do Cloro na tabela periódica, se combinado com um eteno, resulta no seguinte composto químico:” … E eu sei lá? Eu poderia até argumentar que a última vez que ouvi falar de tabela periódica foi há oito anos, mas, pra ser sincero, eu nunca ouvi falar de eteno. Deve ser coisa que só ensinam no cursinho (e no Colégio Bandeirantes). Aquelas coisas que um professor todo extrovertido ensina com uma musiquinha, “Peguei o bromo com eteno um crime”, qualquer bobagem assim. Acho que chutei que resultava em 1,2-dibrometano. Sei lá o que é isso. O Cataflam é diclofenaco potássico, e eu nunca precisei saber nada muito além disso sobre química pra permanecer vivo.
Matemática foi similar. Algumas questões faziam bastante sentido antes de chegar às alternativas. “Eu tenho três maçãs. Uma delas tem um bicho. Quantos radianos tem a porção de maçã que o bicho comeu? a) raíz de três sobre dois; b) quatro vezes raíz de dois sobre cinco”, etc. Fiquei me perguntando se essas questões não tinham uma alternativa F oculta, acessível através de uma combinação secreta de quadradinhos preenchidos na folha óptica, que seria sempre “42″. “Dados os pontos A e B num plano X, sabendo que formam um ângulo R de tangente raíz de três sobre dois, qual a área do hexágono central? a) blá; b) blé … f) 42″. Seria essa e pronto.
Mas a melhor foi a pergunta sobre história da África. “O mapa acima mostra a divisão de poder entre as tribos no início do século XVIII. Com base nestas informações, pode-se dizer que: a) o atual conflito de fronteiras no Congo deriva das diferenças religiosas entre os grupos étnicos que habitavam a região à época da colonização européia; b) a Etiópia manteve sua forma inalterada; c) a atual guerra civil na Costa do Marfim é conseqüência da exploração de suas jazidas de prata por uma minoria étnica”. Eu não sei. Não faço a menor idéia. No meu tempo, só estudávamos história do Brasil e da Europa. Veja só, nem a história dos EUA eu estudei. Nem do Japão e da China, que são muito mais interessantes. Nem dos vizinhos sulamericanos. Por que raios eu saberia que grupos étnicos dominaram as minas de prata africanas no século XVIII? Ora, tenha dó.
Em todo caso, isso finalmente me leva de volta à frase do Ziraldo. No Ginásio, eu fiz um trabalho sobre a África. Foi na época em que o Zaire mudou de nome para Congo, pra ficar igual ao seu vizinho que já se chamava Congo. Para fazer o trabalho, eu li alguns livros sobre a África, alguns verbetes relacionados em enciclopédias, algumas notas de jornal para a história mais recente, e até peguei algumas informações na internet. Pra complementar, na abertura do trabalho, antes de qualquer coisa, coloquei a poesia “Vozes d’África”, de Castro Alves. Na capa, o mapa mundi com a África representada por uma mancha de tinta que escorria de um tubo de nanquim tombado. Fiz um trabalho tão exemplar que, nas palavras da professora, tirei dez porque não poderia tirar vinte.
E eu não sabia absolutamente nada sobre a África antes de fazer aquele trabalho. Só sabia que tinha em casa alguns livros que falavam sobre o continente. Sabia que havia um conflito no Zaire porque sempre lia as manchetes do jornal e o que mais me chamasse a atenção no caminho até a página de quadrinhos. Sabia que um poeta brasileiro havia escrito algo sobre a África porque li outra poesia dele e alguns comentários sobre ele em outro lugar qualquer. Eu não sabia nada sobre a África, mas sabia onde estava a informação: fui até lá e extraí, para aquele fim específico, o que eu precisei, e foi ótimo. Mais de dez anos depois, não lembro de quase nada daquilo, mas ainda sei onde encontrar a informação novamente – mesmo que seja num velho arquivo .doc que contém o texto do meu trabalho.
O mesmo vale para os radianos de maçã que o bicho comeu. Eu não sei quantas raízes de três tem a macieira, mas sei que numa estante num quarto nos fundos da casa tem um livro sobre trigonometria que um professor de matemática muito atencioso me deu, muitos anos atrás, e que eu li igualmente há muitos anos. Não lembro mais nada, mas para calcular a área do hexágono, bastaria pegar aquele livro, talvez alguns outros, e em uma hora eu responderia com precisão. Eu sei como os átomos se combinam, mesmo que não saiba o que é um eteno: uma olhada rápida na descrição de um e na tabela periódica e eu diria o que ele forma quando se une ao bromo. Eu não lembro se moluscos têm exoesqueleto de quitina, mas não precisaria de mais que cinco minutos pra determinar se isso os colocaria acima ou abaixo dos anelídeos na cadeia evolutiva.
Tudo isso porque eu sei que a informação está lá. Eu sei onde ir para encontrá-la. E eu só sei porque eu trombei com algo similar algum dia enquanto lia outra coisa qualquer. Como eu sabia sobre o conflito no ex-Zaire porque gostava de Dilbert e Níquel Náusea. Eu nunca precisei decorar a Enciclopédia Larousse porque eu sabia que ela sempre estaria ali na estante, e eu sabia como encontrar qualquer coisa nela. Me dê a prova da Fuvest, me tranque no quarto ali no fundo da casa com os livros (e sem internet, importante frisar), e antes do prazo limite eu terei uma prova digna de entrar em qualquer curso, sem gastar anos cantando musiquinhas num cursinho pra atolar minha cabeça de informação que não tem um único propósito na existência do universo além de talvez ser útil em uma pergunta do vestibular. Porque eu aposto que jamais verei novamente, até meu último suspiro, o 1,2-dibrometano.
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Mas ganhamos uma piada nova pros próximos anos. =D
Como uma blusa minha costumava dizer, e como são sábias as roupas, “o que importa é o nível de divertimento”.
Toda vez que determinado colega de trabalho levanta uma questão, eu quase sempre busco a resposta na internet, e ele então retruca com um sorriso: “Você e essa sua máquina maldita.” O que eu respondo para ele é: “Não tenho por que desperdiçar a minha memória à toa; já está tudo aqui na internet. O que importa são as idéias e a maneira como a gente cruza elas.” Desnecessário dizer, então, que me simpatizei com o post.