O post “Hi, honey!”, sobre a novela América, foi um dos mais comentados, principalmente ao vivo. Por isso, desde que Cloninho das Ameríndias começou eu penso em escrever um post sobre essa retrama da Glória Perez, mas para isso precisaria assistir a alguns capítulos. Faltando uma semana para o fim, acho que não vi mais que três capítulos. O incrível é que, no pouco que vi, encontrei pontos o suficiente para criticar.

O exemplo mais óbvio é a Índia, ou Remarrocos. Muda o ângulo da câmera e tá valendo. Mas um pouco de atenção e memória e viam-se as colunas, os arabescos, as escadas, o mercado, alguns figurinos, e uma vaca no meio. A Índia é o Marrocos de outro ângulo com um rio no meio e uma vaca.

Família hindu típica.

Família hindu típica.

Metade dos hindus não parece hindu. Muitos parecem ingleses, até: de pele clara e tomando chá sem parar. Onde está o curry? Há tamanho drama sobre quem pode ter a chave do armário de temperos mas a comida temperada por excelência eu não vi uma única vez. Acho que o que caracteriza um hindu é a inclusão de uma palavra-chave a cada três frases, ao menos. Eles têm que dizer “mamaji”, “chai pyô”, “por Shiva!”, e o absoluto “arre égua”, ou melhor, “ale baba” e outras coisas incompreensíveis o tempo todo, ou voltam a ser cariocas.

Não bastasse, parece que toda cena onde se juntam mais de cinco membros de uma família hindu é desculpa pra mostrar como as culturas são diferentes, com longos monólogos em seqüência sobre como os ocidentais não fazem refeições em família, não negociam o preço ao comprar uma coisa, não cospem fogo ou esticam seus braços e pernas ao lançar seus ataques, etc.

Ainda sobre os monólogos: toda vez que o Tony Ramos fala eu acho que ele vai terminar com “Seja você também um Amigo da Escola”. Tudo que diferencia esse personagem do ator são de fato as palavras-chave. Isso vale pra quase todos, mas alguns representam personagens de novelas anteriores, com mais jóias e “por Shiva!” no lugar de “minha Nossa Senhora!”.

Em resumo, em termos de representação da Índia e sua cultura, essa novela quase empata com Shurato.

De volta à geografia, vale notar que a Índia é mais longe do Brasil que o Marrocos – muitas vezes é necessário até pernoitar em Dubai ou Londres no meio da jornada. Basta encostar sua bicicleta em qualquer lugar por ali e continuar a viagem no dia seguinte. Eu recomendo Dubai mais que Londres: parar em Londres a caminho da Índia duplica a distância, mas essa coisa de espaço tridimensional e leis da física é pra novelinha das seis, de época, onde as carroças são puxadas por vacas comuns. Mas, principalmente, porque a cidade inglesa, pelo que vi, fica numa fena espacial, e não tem cenário – até Miami, com seu um cais, uma pousada, uma casa noturna e um pedófilo, tinha mais a mostrar. Dubai tem sempre o mesmo take de um carro vindo numa rua e uns prédios filmados de um helicóptero (que pode ser uma área qualquer de São Paulo com algum Photoshop), mas ao menos existe.

Miami também aparece em Cloninho, mas não tem mais polícia – eles dependem da Polícia Internacional. O que não é problema, de fato: a Polícia Internacional é melhor equipada e preparada, tem um sotaque muito mais intimidador, e resolve. Seqüestrador vem com exigência de familiar se deslocar do Rio até lá para negociar, nana-nina, não vamos perder essa meia-hora esperando o cara chegar; resolvemos logo de uma vez. É graças à Polícia Internacional que Miami não tem mais seu pedófilo. O cais e a casa noturna foram vendidos pra Dubai por causa da crise.

Integrantes da Polinter (Polícia Internacional).

Integrantes da Polinter (Polícia Internacional).

A crise, no entanto, não impediu que a tecnologia evoluisse bastante ao longo dessas novelas super-antenadas. Dara e o Cigano Igor trocavam e-mails no MS Word 2.0. O garotinho de América trocava mensagens instantâneas com seu amigo da terceira idade e segundas intenções através de um arquivo de PowerPoint (em tela cheia com fundo azul gradiente, letras brancas e roxas em itálico e tamanho 30, as frases surgiam com um efeitinho).

Nesse campo, Cloninho é uma revolução: a tecnologia coloca o texto de escanteio e chega com video-chat! Graças à webcam, um aparelho mágico que transforma o monitor num wormhole: para falar com alguém do outro lado do mundo, sente-se na frente do computador e chame a pessoa bem alto, o som automaticamente sairá no computador adequado. Mas, reciprocidade, se eu não te vejo você não me vê: só conseguirá enxergar o outro lado se o monitor da outra pessoa estiver ligado.

Percebendo a oportunidade de atingir uma audiência ávida por tecnologia de ponta, a Apple revelou na novela uma versão futura de seu iPhone. Enquanto as atuais sequer gravam vídeo com som ou enviam mensagens multimídia (na época da cena, ao menos; talvez agora envie com um-e-meio-mídia), certo personagem fazia streaming da Índia para o Brasil, em tempo real e qualidade de DVD, de uma festa que filmava com seu telefone. É o palantír-G, deve substituir o 3G nos grandes centros em 2013.

Aliás, com a tecnologia de comunicação tão avançada assim, é bastante conveniente que o conceito de fuso-horário normalmente não exista nesse mundo. “Normalmente” porque vez ou outra há a impressão que é noite num canto e dia no outro, mas na maioria das vezes é tudo junto. Os hemisférios do mundo de Glória Perez giram com velocidade e direções independentes. Ou, segundo a visão mitológica da obra da autora, a Terra é o centro do universo, mantida suspensa por quatro elefantes gigantes que estão de pé numa tartaruga maior ainda; o céu está apoiado nos ombros de um Titã; e o sol é um polvo enorme segurando oito lanternas gigantes, cada uma para iluminar uma porção do planeta, mas às vezes ele esquece de acender alguma.

Sol de Glória Perez, à noite.

Sol de Glória Perez, à noite.

Uns 20% do tempo que passei vendo essa novela foram vendo a Dira Paes saracoteando pelo Bairro Pobre Carioca, com seu decote sempre igual, e com uma releitura pós-feminista da música “Eu não presto mas eu te amo” tocando bem alto. Dá a impressão que a autora, quando abriu o arquivo “Roteiro – O Clone.doc” pra copiar, percebeu que aparecia muitas vezes “[20 minutos de dança do ventre]” e achou aquilo um exagero. Menu Editar, Substituir, e trocou tudo por “[5 minutos de dança indiana e 15 minutos de saracoteamento]“, porque vinte minutos de dança indiana por capítulo estouraria o orçamento.

E o orçamento, fica claro desde o início, era baixo. Miami virou um só hotel, Dubai só tem um take, Londres não existe, a Índia é o Marrocos de outro ângulo com uma vaca. Mas a evidência maior está na abertura. Observem: são uns seis elementos repetidos duas mil vezes cada, flutuando como aquele screensaver velho padrão do Windows em que uma centena de cópias do logo do sistema ficam vindo na sua direção. Dizem que, nos primeiros capítulos, 0,04 segundo antes de ir pro intervalo aparecia um único frame preto dizendo “Fim da apresentação. Clique ou pressione qualquer tecla para continuar.”.

Pra terminar, com a correção de uma omissão anterior e a inclusão dos locais de Cloninho das Ameríndias, o mundo da Glória Perez ficou assim:

Mundo de Glória Perez
One Response to ““Sacred cows make the best hamburger.””
  1. The Journeyman says:

    Gênio!

  2.  
Leave a Reply