Post de Natal depois que o Natal já passou.

Lá pela segunda ou terceira série (ou seja lá como isso é chamado atualmente), os livros de português sempre abriam cada capítulo com uma historinha, seguida de regrinhas gramaticais. Chegar a um capítulo novo era um suplício para a sala, que primeiro tinha que ler o texto em silêncio – sem mexer a boca! – e depois copiá-lo no caderno.

Eu, chato e metido que era, lia muito mais rápido que os outros. Havia só um rival à altura na classe, mas a disputa com ele era amigável. Pois um dia tínhamos que ler o texto, lemos muito rápido e ficamos sem ter o que fazer. Então lemos em voz alta e atrapalhamos todo mundo. Depois lemos com o livro ao contrário, e nada do resto da sala acabar de ler. Finalmente, decidimos ler de trás pra frente, e só aí a professora pediu que parássemos de atrapalhar os outros. Forçado ao silêncio, resolvi ler os textos seguintes. Já era o segundo semestre, não foi difícil chegar ao último – e o resto da sala, que nunca aprendeu a ler de carreirinha, ainda não havia acabado.

Foi bom ter lido o último texto aquele dia, pois as aulas acabaram antes que a professora pudesse chegar até ele (não sei qual era a regrinha gramatical do capítulo, mas tenho certeza que até hoje ela é um buraco nas fundações de meu conhecimento). Era uma história sobre um garoto (que não se chamava Charlie Brown) que queria saber o que era o Natal, e saiu perguntando por aí. Não lembro de todas as respostas. Provavelmente o irmão disse que era dia de ganhar presente, a mãe disse que era dia de cozinhar pra família toda, e o pai, que lia o jornal, disse “É feriado. Não tenho trabalho.”. Essa do pai eu me lembro bem. “É feriado. Não tenho trabalho.”

Achei a frase estranha. Deveria ser “Não trabalho.” ou “Não tenho que trabalhar.”. Não importava. Havia o resto: “É feriado.”. Natal para um adulto era só um feriado? E no dia 24 ele trabalhava? Até aquele ponto, para mim, Natal era um dia tão importante, que colocaram dois meses de férias escolares ao redor dele. Não que eu achasse muito importante celebrar o nascimento ou o que fosse; o pensamento era inverso: se tem dois meses de férias ao redor, é um dia muito importante (Dia das Crianças tinha só uma semana de férias acompanhando, então era menos importante e o presente devia ser mais barato – minha forma de ver o mundo na época seria bastante censurada hoje em dia). Adultos tinham só um mês de férias ao redor do Natal, mas ainda tinham. Aí o pai do texto diz que é só um feriado.

Bagunçou minha noção das coisas. Passei a prestar atenção e, de fato, para os adultos era um feriado; muitos continuavam trabalhando nos dias ao redor daquele feriado quase comum, alguns ganhavam folga até o Ano Novo, mas fora isso o Natal não era grande coisa. Havia especiais na TV e propagandas desde o começo de dezembro (agora é desde a metade de outubro).

Parênteses: tinha uma propaganda com uma musiquinha “Pede Lego, pede Lego, pede Lego no Natal!”. Hoje todo Lego é importado e caríssimo, não tem mais propaganda. E, por lei, propagandas para crianças não podem usar frases imperativas. A sociedade não chegará a 2050 se continuar assim. Fecha parênteses.

Então esse ano eu trabalhei até dia 23/12 e volto a trabalhar dia 4/1. Ano passado foi similar, mas tinha começado pouco tempo antes, não senti tanto o impacto. Mas é isso aí, Natal é um feriado, ter o dia 24 livre é sorte, ter a semana até o Ano Novo livre custa dez dias das férias daquele ano. Os dois meses de antes viraram dez dias. E essa pausa de dez dias precisa ser compensada, então as três semanas anteriores são ridiculamente ocupadas. Quando finalmente é possível descansar, o ritmo está tão alto que os dez dias mal são suficientes pra perceber que não há preocupação imediata. Haverá logo, pois em janeiro é preciso compensar fevereiro, o mês que dura duas semanas, mas é melhor não pensar nisso agora.

Aquele pai do texto dizendo que o Natal é um feriado, “não tenho trabalho”, é uma semente pra colocar nas crianças a idéia de que toda a graça vai acabar. É como um bilhetinho num presente sob a árvore dizendo “Já pensou na possibilidade de Papai Noel não existir?”.

O resto da minha sala de segunda ou terceira série não leu esse texto. Será que não ficaram se preocupando e foram mais felizes antes de receber esse impacto?

Outra vez, toma.

One Response to ““Eu a matei!””
  1. Flines says:

    Não quero trabalhar nunca nessa vida.

  2.  
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