Eu me ofendo com a frase “Não me inveje, trabalhe!”.

Eu sei que o conselho, o “melhor a fazer”, é ignorar, mas não ignoro. Ao colocar um adesivo no carro ou pintar a frase no pára-choques do caminhão a pessoa inicia comunicação com qualquer um capaz de ler a mensagem. Eu li, a comunicação foi concluída. Não vou fingir que não li, “don’t sweat the small stuff”, “pff, que bobagem”, e seguir em frente. Eu li, ele se comunicou comigo intencionalmente, e eu tenho uma reação sobre isso. De fato, ignorar é uma reação tanto quanto se ofender, embora faça menos mal ao sistema circulatório a longo prazo. Fingir que não viu não equivale a não ver.

Vamos em frente.

“Não me inveje… trabalhe!!!” Deve haver uma “regra de três” na pontuação dessa gente: toda vírgula vira reticências, todo ponto de exclamação e interrogação se triplica. E eu não o invejo; pra começar, eu sei escrever melhor que você.

E do que exatamente eu devo ter inveja? De você ter um caminhão? Não quero um caminhão. Isso implicaria em ter onde guardá-lo, se o caso fosse apenas “ter” o caminhão, ou conduzi-lo, como você está fazendo. Não quero conduzir um caminhão. Não quero passar doze horas (provavelmente mais) do meu dia em rodovias, nas marginais de São Paulo, parado na Avenida dos Bandeirantes a caminho do porto de Santos, pra chegar lá e me aborrecer com estivadores, e fazer todo o caminho de volta só pra começar de novo. E muitas vezes dormir na mesma cabine, ou em postos de higiene duvidosa. E passar semanas longe de casa. E, sempre que estiver dentro de uma cidade, ser odiado por todos os motoristas nos carros, e todos os moradores das casas próximas a onde parar. E me forçar a me orgulhar de ser uma engrenagem na grande máquina do país, porque “sem caminhão o Brasil pára” e “se tá na mão, veio de caminhão”, mesmo sabendo que isso é reflexo de uma decisão no mínimo equivocada, mas provavelmente de má fé, tomada há meio século, e que seria infinitamente melhor para o mundo todo – para a economia nacional, para a ecologia mundial, para o trânsito das cidades e rodovias, para a conservação do asfalto – se a carga fosse levada por trens. Por isso, seu idiota, eu não tenho inveja nenhuma de você. Seu trabalho é necessário no cenário atual, sim, mas isso absolutamente não o torna especial.

Mas muitas vezes essa frase não está num caminhão, e sim num carro qualquer. Qualquer, i.e., um carro que já transportou gente com permanente, polainas e bigodão (não necessariamente na mesma pessoa) ou cuja última parcela será paga quando permanente, polainas e bigodão voltarem a ser moda. Imagino duas possibilidades: a técnica de acusar os outros de suas próprias falhas (“você que tem inveja, não eu!”); ou a necessidade de se colocar acima de alguém, qualquer que seja (alguém puxando uma carrocinha talvez consiga ler aquilo e tenha inveja – mas, oras, puxar uma carrocinha, por pior que seja, ainda é um trabalho!).

Mas, tudo bem, vamos aceitar a hipótese de que alguém em posição econômica (não social) mais vantajosa tenha a frase em um carro realmente invejável. Vamos além, então: a solução sugerida é “trabalhe!”. Pois, se eu estou em posição de ler o adesivo, estou no carro de trás ou, talvez, no ônibus ao lado. Em qualquer dessas situações eu provavelmente já estou indo trabalhar! O que mais quer que eu faça? Arrume um emprego melhor? Agradeço sua preocupação, mas digo que, se já não estou fazendo isso de alguma forma, é porque me satisfaço com minha situação atual e não preciso de um carro como o seu para ser mais feliz do que sou hoje. E, se eu não estou indo para o trabalho, estou indo para uma aula – que com sorte me dará um trabalho melhor -, ou passear, viajar, ao shopping, ao cinema, a um teatro, a qualquer outro lugar – o que implica que não estou preocupado, naquele momento, em trabalhar.

E mais, se você dá tanta importância ao seu carro, se o carro é a coisa que te faz tão feliz e você acha que as pessoas ao redor o invejam por tê-lo, você precisa de um hobby, de um emprego melhor, de menos problemas na família, o que seja. Se você precisa de um adesivo pra afirmar sua superioridade, você não a tem.

Tudo isso posto, aquele adesivo faz de você um idiota, como eu já disse. E por isso, e por tudo que eu já disse, eu poderia, sim, ignorá-lo. Mas não, eu me ofendo. Me ofendo porque você não só é um idiota como não tem a capacidade de perceber o tamanho de sua idiotice e, apesar disso, ainda se acha no direito de se considerar superior a qualquer um que leia seu adesivo ou seu pára-choque. É como uma barata que vem andar sobre meu lençol. Eu tenho mais ódio que nojo da barata. E eu me ofendo com a sua frase.

One Response to ““Sympathy one receives for nothing, envy must be earned.””
  1. Flines says:

    Se tivesse mais abobrinha e menos informações reais e úteis, esse post seria meu.

    Claro que concordo, mas o adesivo é só uma das infinitíssimas maneiras de ser esse tipo de idiota, infelizmente. E eu tenho tanto nojo quanto ódio da barata.

  2.