O anime “Shoujo Kakumei Utena” precisava preencher 39 episódios com uma história que, no mangá original, acabava em seis volumes. Algumas soluções que encontraram foram ótimas, e conseguem até mesmo deixar algo claramente repetitivo bastante tolerável, até agradável. Os elevadores sobem e descem de forma idêntica em dez episódios seguidos, mas estamos tão entretidos tentando decorar a repetição quase aleatória de “mokushi kushimo shimoku kumoshi moshiku shikumo”, ou procurando a pequena variação no texto do ovo e da galinha, ou prestando atenção no quadro da lagarta e da borboleta, que nem percebemos.

Os primeiros dez episódios têm duelos de espadas. Há um arco mais pacífico e, mais tarde, outros seis ou sete têm duelos de novo. Todo duelo tem uma música de fundo, em japonês com eventuais palavras em latim ou inglês no meio, cantadas por um coral. Essas músicas são outra ferramenta para esconder a repetição. Lembro que, antes mesmo de acabar de ver o primeiro arco de episódios, eu já tinha todas essas músicas, e minha favorita entre elas era “Spira Mirabilis”, do episódio seis, se não me engano.

Muitos episódios depois, Spira Mirabilis reaparece, em versão mais floreada. Quando percebi, fiquei todo orgulhoso. “Minha música favorita é a única que ganhou arranjo novo e voltou pro anime!” Minutos depois me achei um idiota. “E o que isso importa, pra mim? Qual é a razão desse orgulho? Eu escolhi como preferida a mesma música que algum produtor? Eu escolhi a ‘certa’, completamente por acaso, e ‘dei sorte’? Ou escolhi a que de fato tinha mais qualidade do que as outras, e o arranjo novo era só questão de tempo?” De qualquer forma, percebi que me orgulhar de minha favorita ganhar arranjo novo era absurdo, eu não havia influenciado aquilo de forma alguma; ou era puro acaso, ou algo já direcionado.

E se fosse pão? Eu gosto de pão. Se eu andasse com uma camiseta com um grande pão francês estampado, me achariam no mínimo estranho. Mas vamos lá, houve uma grande seca hipotética em certo país e a ONU vai enviar alimentos. Estavam em dúvida entre pão, arroz e batata, e no final escolheram pão. Vitória do pão! E dá-lhe pão, e dá-lhe pão, olê-olê-olá!

Mas que vitória do pão é essa? Se o pão foi escolhido, ou era a opção mais lógica (havia trigo por perto, era mais barato que transportar arroz, resistia melhor ao clima, etc) ou alguém achou que pão seria mais legal (era fã, dono da padaria que forneceria, etc). O fato do carboidrato de minha preferência calhar de ser o mesmo da ONU pra esse caso não é motivo de orgulho.

Por outro ângulo, eu gosto de pão e digo que é saudável, insisto que todos devem comer pão (e, na falta, brioches, mas de preferência pão). Aí a Organização Mundial de Saúde publica um estudo dizendo que pão é o que há, mesmo, imbatível, melhor coisa depois da torta de Smurfamora. Talvez aí eu me permitisse algum orgulho; afinal, minha opinião leiga, sem qualquer base científica e fruto de nada além de gosto pessoal foi corroborada pela OMS (WHO é muito mais legal, diz aí). Seria um orgulho do tipo “olha só, chutei certo” que surge quando vamos bem naquela prova onde “só caiu aquele único capítulo que eu não estudei”.

Seja como for, o orgulho por gostar de pão é vazio. É pura coincidência que a OMS recomenda. É pura coincidência ou conveniência que a ONU distribui no Hipotetistão. O mesmo vale pra Spira Mirabilis: talvez ela reapareça por ser a preferida da maioria dos fãs de Utena, então seria natural ganhar arranjo novo; ou apenas calhou de eu gostar da mesma música que o produtor musical; ou o compositor fez dois arranjos, mesmo; ou ela foi sabidamente feita pra ser melhor que as outras. Qualquer coisa do tipo.

Então apliquei esse pensamento aos times de futebol. “Nunca vou te abandonar”, “Orgulho rubro/alvi/tri/negro/color/verde”, etc, e percebi que é exatamente a mesma coisa. Você se orgulha quando seu time vence? Qual é a razão do orgulho? O que você fez pra se orgulhar, além de escolher um time ao acaso entre as opções disponíveis, ou um cujos jogadores mais agradavam, ou cuja história tinha mais vitórias? Como isso é diferente de eu escolher Spira Mirabilis ou gostar de pão?

Não é diferente. Não sei se Spira Mirabilis tem dois arranjos por coincidência, conveniência, etc; não sei se o pão estava mais perto ou mais barato. E não importa. Eu não fiz nada de que posso me orgulhar. Nem você, ao torcer por esse ou aquele time. Escolheu por algum critério subjetivo, ou mesmo ao acaso, e deu sorte; escolheu o mais forte e o fim era natural. Tanto faz, não influenciou nada.

Em resumo, se seu time ganhou, fique feliz, mas não orgulhoso. Orgulhe-se de suas próprias realizações. Gostar de pão e de Spira Mirabilis não é realização.

3 Responses to ““I’ve been in some strange worlds, strange customs. Perhaps this is considered torture here.””
  1. Beru says:

    Shooow. XD
    Usou tantos exemplos aleatórios que me deu um pequeno nó cerebral… mas foi bacana. =D
    Tá supimpão. XD

    I lol’d. XD

  2. Renata says:

    Excelente. Essas coisas sempre me irritaram. “Tenho orgulho de ser carioca/brasileiro/negro/vascaíno/roxo com bolinhas azuis”. Po, sei lá, no meu tempo a gente se orgulhava de coisas que davam trabalho, tipo construir uma casa ou juntar uma poupança, é muito preguiçoso se orgulhar de algo que você já é ou só precisa escolher, né?

  3. Beru says:

    “E a torcida viiiibra pedindo BIS.” XD
    Manda outro post aí, Diego… =D~~~~~~~~~

  4.