Não lembro da primeira redação que escrevi na escola. Deve ter sido no Prepri Mário, seja lá como isso é chamado atualmente.

Lembro de uma vez em que foram dadas algumas palavras que deveriam ser usadas no texto. Era mais ou menos assim: “escola”, “excursão”, “zoológico”, “animais”, “preferido”, “leão”, “professora”, “melhor”, “passeio”, “vidas”. Se eu já conhecesse na época o conto da flor vermelha com caule verde, teria ficado muito mais revoltado do que fiquei. Mas eu ainda não era rebelde, então escrevi o raio da historinha piegas e sem graça onde a escola organiza uma excursão ao zoológico e de todos os animais o preferido da turma é o leão e quando voltam a professora diz que foi o melhor passeio de nossas vidas. Que vidas vazias! Pior, eu achei que poderia dar um pouco de drama ao fim, então escrevi o “Foi o melhor passeio de nossas vidas” grandão, as letras de mão ocupando duas linhas – e isso foi tão penoso, tão difícil, tão tenso, que esqueci de cortar o F inicial e a maldita professora da história acabou dizendo “Toi o melhor passeio”. Que direito essa professora babaca de uma redação que me cauleverdearam a escrever tem de dizer que uma ida ao zoológico toi o melhor passeio da vida de duas dúzias de estudantes primários!? E ela devia ser órfã, fez internato de freiras dos sete aos dezesseis anos, depois trabalhou dia e noite e fim de semana pra pagar o magistério, a pensão e juntar pro enxoval, e começou a dar aula nessa escola há um mês. Nunca foi nem na pracinha tomar um sorvete. E tem problema de dicção, a maledeta!

Eu odiei aquela redação. Odiei cada frase, cada personagem, cada animal do zoológico, cada erro que cometi – principalmente o Toi. E ganhei um “Ótimo”, que era melhor que “Bom”, só perdia pro “Excelente”. E todos acharam o máximo porque eu escrevi frente e verso da folhinha de redação, que tinha mais ou menos metade da altura de uma folha de caderno comum, enquanto muitos mal preencheram a frente, não conseguiram usar todas as palavras dadas. Como!? Era praticamente um exercício de preencher lacunas!

Fosse uns dois anos mais tarde, eu já era mais criativo e rebelde, e já conhecia o conto da flor vermelha com caule verde. Teria usado as palavras pra escrever uma redação em que, durante uma excursão escolar ao zoológico, um dos alunos desaparece; encontram o corpo na jaula do leão, chamam um detetive pra investigar, ele descobre que a professora era noiva do pai do aluno antes de começar a dar aulas mas ele engravidou outra mulher e teve que se casar às pressas e aquele menino era resultado disso, ela ficou pirada e virou professora e seduziu o diretor da escola pra poder dar aula na classe do seu alvo e esperou o momento certo onde poderia fazer tudo parecer um acidente, mas não imaginava que o tal detetive entraria no caso e descobriria tudo. Ela se arrependeria, confessaria, culparia o amor doentio e a traição do ex-noivo, e a história terminaria com o inspetor de polícia levando ela pra cadeia e comentando com o detetive que aquele “não foi o melhor passeio da vida dessas crianças, mas certamente será inesquecível”.

Pois é, naquela época eu jogava muito o jogo de tabuleiro “Scotland Yard” e, por isso, tinha um cloninho de Sherlock Holmes que encaixava em toda redação que escrevia. Não lembro o nome dele, mas o inspetor chamava, descaradamente, Lestrade, e fazia também o papel de companheiro bobo, porque eu não queria adicionar um Watson. Era bem mais fácil escrever historinhas policiais do que o sei-lá-o-quê que as professoras esperavam que os alunos escrevessem no primário. Um crime qualquer, um vilão (ou, mais freqüentemente, vilã) com excesso de auto-confiança, e um erro qualquer que passasse despercebido pelo equivalente do CSI mas não pelo detetive titular. Aí minhas redações ficavam com frente e verso – algumas até precisavam de mais uma folhinha! – e todo mundo achava o máximo.

Mais uns anos à frente, algum professor ou professora (sinceramente não me lembro) decidiu que os alunos deveriam escrever livros! Dividiu a enorme classe de então seis pessoas (colégio decadente) em dois grupos (“meninos” e “meninas”, veja só). O meu grupo (o dos meninos!) não fazia idéia do que escrever. Pens(ei)amos numa história baseada no primeiro Alone in the Dark – família se muda para uma mansão assombrada construída sobre um complexo de cavernas que chegaria até Cthulhu. Abandonamos essa e ficamos sem. Então desenterrei o detetive. Mas não poderia ser uma cópia descarada de Sherlock Holmes, então o modifiquei bastante: virou um policial de meia idade, gordinho, solteiro, de bigode, com medo de altura e mania de organização. Até hoje me pergunto o que raios eu tinha na cabeça. Pra fazer a história render mais, os episódios do policial resolvendo o caso central eram entremeados por outros sobre sua vida cotidiana, às voltas com os vizinhos do prédio em que morava, tomando conta do poodle Arquiduque Fifi que a senhora gorda do andar de cima deixou enquanto foi viajar, etc. Não lembro muito bem da história. Lembro que ficou legalzinho, até, considerando a forma como foi feita, que foi baseada em redações infantis de duzentas palavras, e escrita em algo em torno de três semanas. No final ele superava seu sedentarismo e sua fobia numa perseguição pelos telhados da cidade.

O livro das meninas era meio narrativa, meio manual, sobre uma adolescente às voltas com a primeira menstruação, o primeiro namorado (e o primeiro chifre), as dúvidas sobre quando ter a primeira relação sexual, as brigas com a mãe por voltar tarde da balada… “Vamos fazer nossa própria versão de ‘Confissões de Adolescente’?”. Tiraram dez. Eu me embrenhei no grupo como revisor e editor (ou “o único que sabia mexer no Word e tinha impressora”) e compartilhei a nota.

Aí veio o que na época chamavam de ginásio e colegial e praticamente não havia mais redação narrativa. Escrevíamos artigos, reportagens, análises, ensaios, um monte de coisa abstrata, mas inventar e contar histórias, nunca mais. Escrevia histórias de personagens de RPG que nunca eram usados (Dá pra acreditar? Nunca consegui jogar RPG. O universo sempre conspirou contra.), ou pra concursos nos MMORPGs que jogava. Dessa época, lembro de um texto sobre “alunos desinteressados”… Esse foi no braço, foi um custo escrever algo abstrato quando os exemplos concretos estavam logo ao meu lado. Teve outro sobre “o ato de escrever” que saiu completamente no piloto automático. Eu gostava de contar histórias, nunca havia parado pra analisar o processo de contá-las.

Na faculdade, nunca esperei que me pedissem pra escrever narração alguma. Uma vez uma professora pediu um texto sobre a Guerra no Iraque, que estava começando. Eu fugi do lugar-comum e escrevi que o mundo é um lugar melhor sem uma ditadura promovendo limpeza étnica. A professora me deu uma nota baixa qualquer – sei lá, 4 – porque eu não usei as palavras-chave que ela queria (mas não disse antes): “invasão”, “petróleo”, “roubo”, “soberania”, “massacre”. (Eu queria estar inventando isso.) Absolutamente não analisou o que eu escrevi, só se eu usei as tais palavras. Perguntei se ela conhecia o conto da flor vermelha com caule verde; a classe toda riu, concordante, mas ela não conhecia.

Em todo caso, faz tempo que não escrevo narrativas. Nunca mais me pediram na escola, o universo continuou me impedindo de jogar RPG, larguei a vida de MMORPG. Mas não disse tudo isso pra anunciar que vou lançar meu primeiro romance. Nem ao menos vou dizer que vou tentar escrever um conto de vez em quando. Nada disso. Por enquanto, eu só queria contar essa história, mesmo.

One Response to ““I don’t like to write, but I love to have written.””
  1. Flines says:

    Se eu achasse que fosse Prepri Mário, teria tido mais medo ainda. XD

    E você criou o Monk com seus coleguinhas! =O

    Ah, sim. Eu sei que esse livro não sai por preguiça. Ou esses.

  2.