O que torna tudo isso chato é a falta de algo desconhecido inerente a cada um. E é exatamente isso que tantas histórias adicionam ao ser humano pra torná-lo mais interessante. Veja só:
Em Star Wars, a Força. Se prestar atenção nos filmes, verá que ela é usada de fato só umas cinco vezes em toda a trilogia clássica. Yoda tirando o X-Wing do pântano é a maior demonstração de uso da Força nos três filmes originais, e nem é tudo isso. Serve também pra fazer gente de mente fraca aceitar sugestões verbais (e não é nem controle da mente, é um simples “não são esses os droides que estão procurando, usted puede confiar en mi”). E se você é forte na Força seu corpo desaparece quando morre. Mesmo assim, a Força está lá e é respeitada, os que a têm percebem outros que a têm, e em que grau, e se há algo de errado no universo (“I sense a disturbance in the Force”). Yoda é um velhinho verde engraçadinho, mas tem um enorme controle da Força, a audiência acredita nisso e o respeita. Darth Vader é um aleijado, mas nunca se viu ninguém em que a Força fosse mais forte, a audiência acredita e respeita. Por aí vai. (E midchlorians não existem.)
Os Cavaleiros do Zodíaco têm o cosmo. Não lembro a explicação exata, acho que dizia que cada pessoa tinha dentro de si um universo e podia usá-lo pra fins extraordinários, ou usava o próprio universo, qualquer coisa assim. O que importa é que eles tinham uma fonte de poder inerente e, de certa forma, desconhecida. “Estou sentindo um cosmo imenso e muito agressivo!” e esse cosmo era usado pra aplicar mil socos à velocidade do som, criar feixes de luz destrutiva, mover o ar a velocidade extrema pra criar barreiras invisíveis, congelar coisas a níveis próximos do zero absoluto, fazer água fluir ao contrário e até queimar uma folha que cai de lugar nenhum no meio de uma montanha onde só tem pedra. Sem o cosmo, seriam 88 adolescentes brincando de Clube da Luta.
Dragon Ball, se não me engano, tinha o ki, que era mensurável mas não fazia a menor diferença, porque todo mundo que importava tinha “mais de nove miiiiil!”, e voava e criava genkidamas.
Os ninjas em Naruto têm chakra, que transformam em fogo, água, vento, madeira, disfarces, clones, armas, barreiras, bombas, e o que mais convier. O protagonista tem “um chakra enorme, quase infinito”, que vem da fera mítica presa em seu corpo, mas todos os outros têm seu tanto de chakra que pode usar N vezes e que se recarrega em X horas (onde N e X são “roteiro” e “roteiro”, respectivamente).
(E acho que acabei de descobrir de onde veio o nome da banda “NXZero”. Olha o resultado do tédio numa aula de matemática, que horror.)
Inuyasha tinha “energia sinistra”, que, se me lembro, era uma adaptação de youki (“you” de “youkai”, “ki” do mesmo ki de Dragon Ball), que também existe em Claymore e tem um “limite de liberação” antes que a guerreira “desperte” e aí a youki é multiplicada, e cada uma tem um “tamanho” determinado aparentemente fixo, mas não determinado, que é pra sempre poderem tirar um pouco mais, como Seiya e seu cosmo. Bleach tem “pressão espiritual” e eu nem sei o termo original, mas é a mesma coisa.
Comecei com Star Wars justamente pra não dizerem que só falei de mangá, mas o Ocidente tem tanto quanto, mesmo não sendo tão óbvio. “Mana” é quantificada em RPG porque tudo é quantificado, mas é uma força inerente. O Professor Xavier tem o mesmo tipo de poder que Jean Grey, mas é “mais poderoso”; até que vem a Phoenix e é “muito mais poderosa” que Xavier. Qualquer um deles poderia governar o planeta com o poder que tem. Aliás, me lembro de uma visual novel (nada a ver com Marvel) sobre isso: o protagonista tinha o poder de controlar as decisões de qualquer pessoa, e se tornava presidente com isso. Pra combater o tédio, usava esse poder pra criar partidos de oposição ou grupos terroristas pra tentar matá-lo. Adoraria lembrar o nome disso.
Até mesmo He-Man tem algo desconhecido e inerente. Ao assumir que sua força é mágica, e não apenas resultado de treinamento físico, ele sempre pode fazer um pouco mais: num episódio empurra uma rocha enorme, no seguinte toda a montanha, depois cava ao redor e embaixo de um lago e o levanta inteiro no ar. Sempre pode ir um passo além.
Acredito que o mesmo vale para Superman, embora não conheça os quadrinhos muito bem; não acho que em nenhum momento, sem influência de kryptonita, mágica, falta de sol, o que seja, Superman tentou erguer ou empurrar algo e disse “não dá, pesado demais”.
E aí temos o mundo real.
Vejo três tipos de poder no mundo real: força física e habilidades relacionadas (pra destruir ou construir); habilidades com ferramentas e armas (“Tony Stark fez uma dessas numa caverna com sucata!”, e, por pior que sejam os exemplos, um fuzil dá ao portador certo poder); e o que lhe confere a sociedade.
Nenhum deles é inerente e desconhecido. Os dois primeiros são inerentes, mas não têm nada de muito especial, são limitados e requerem anos de dedicação e alguma sorte pra ser notáveis. O terceiro não é inerente.
Um presidente tem poder porque a sociedade o colocou lá e disse que o presidente tem poder. Ok, democracia, mas o mesmo vale para um ditador: ele tem poder porque alguém o colocou lá e disse que tem poder, mas se seu grupo de capangas (ou o exército, ou o que for) decidir que não o quer mais, acabou, ele não é mais nada. Pode ser capaz de erguer um carro compacto ou acertar uma bala num mosquito a quinhentos metros: basta que o grupo ao redor diga que não, e o poder dele desaparece.
Dinheiro, então? Confere poder enquanto a sociedade disser que sim. Peguemos um hipotético explorador que gosta de andar sozinho por aí. Um dia ele cai numa caverna e não consegue sair; cai a noite e começa a esfriar, ele sabe que pode morrer de hipotermia. Mas ele trazia consigo uma maleta cheia de dólares! Grande coisa. Sem a sociedade ao redor pra conferir aos dólares algum poder, eles são papel pra fazer fogo. Os mesmos dólares não valeriam nada se o explorador se deparasse com índios de uma tribo remota da Amazônia que nunca teve contato com a civilização. No apocalipse dos zumbis, o controle acionário da Microsoft vale menos que uma arma de fogo.
Falta algo inerente e desconhecido às pessoas, algo que não dependa de anos de treinamento (força física, artes marciais), de fatores externos (exo-esqueleto) ou da colaboração de outros (dinheiro). Por isso tantas histórias se focam nisso, personagens com algum tipo de poder são populares, adolescentes se voltam pra wicca e outras “magias” e simpatias, pessoas jogam RPGs offline e online, alguns rezam por milagres: porque a capacidade humana – não, a própria realidade! – é limitada, raramente vai além do óbvio. E quanto mais imaginamos o extraordinário, mais chato se torna o real.
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