“All labor that uplifts humanity has dignity and importance and should be undertaken with painstaking excellence.”
Posted by lorneau in UncategorizedEu trabalho com mangás e gosto muito do que faço.
Pois é. Eu tenho um “emprego” mas não acordo reclamando todo dia por ter que ir trabalhar. Se é preciso ficar mais tempo no fim do dia pra terminar alguma coisa, não me incomodo. E se os prazos apertam, sacrifico o fim de semana pra tentar fazer tudo sair quando e como deve sair.
Não paga muito bem. Claro que acho que, pelo tanto que a redação produz, e principalmente pela qualidade, todos deveriam ganhar mais. Mas entendo que é um produto de alcance muito limitado, que é normal um título que consome mais de oitenta horas pra ser feito (somando todos os envolvidos no processo) não vender nem mil cópias. (Esse número é chutado, editoras brasileiras jamais divulgam as vendas. Tremenda bobagem.) Mesmo assim, por enquanto, ganhar pouco não é um grande problema. Fico feliz de ganhar pouco fazendo algo de que gosto tanto.
Muitas coisas não são como eu gostaria que fossem. Não estou num nível hierárquico suficiente pra fazer com que sejam. Então alguns sons viram verbos em inglês, muitas vezes utilizados em situações em que nem uma edição americana usaria (como um abraço fazer “grab”, um salto virar “dash”; o de sempre). Às vezes viram palavras em inglês a troco de nada, como isqueiros que acendem “bow”, água que espirra “swash” e guizo que toca “cling” ou “bling”. Mas o pior mesmo é quando explicam em português algo que o desenho claramente está mostrando: chama o desenhista de incompetente e o leitor de ignorante.
Eu reclamo disso o tempo todo. A cada um que sou forçado a deixar passar, Lachesis tira um fiapo da ponta do meu fio. Mas isso não é suficiente pra me fazer desgostar do que faço. É um elemento do qual discordo entre tantos outros que me agradam, e talvez um dia não haja do que discordar.
Também não gosto de todos os mangás com que trabalho. Tem coisa pior que Twilight, título com mais fetiches do que qualquer hentai, história com centenas de personagens irrelevantes lutando entre si, romances absolutamente previsíveis e/ou detestáveis. Mas tem a outra ponta, também, e se gosto tanto de metade dos mangás, posso sobreviver com a outra metade sem problemas.
Nenhuma reclamação sobre os colegas de redação. Imagino que o trabalho requeira determinados traços de personalidade bastante não-conflitantes. Discordo de muitas opiniões, mas a única forma de só enfrentar opiniões iguais às minhas é ler o que eu mesmo já escrevi. Mesmo a discordância é pacífica.
Só me é um tanto incompreensível que alguns vejam aquilo como “uma forma de pagar as contas”. Não consigo ver assim. Histórias em quadrinho são uma das formas de arte mais completas; lembro de alguém dizer que fazer uma história em quadrinhos é como fazer um filme com orçamento ilimitado. Cada história, por pior que seja, é uma criação elaborada que tomou muito tempo de um autor e um editor; cada página foi pensada por si só e em seu contexto, passou por inúmeras pessoas com diferentes (e grandes) talentos até chegar a mim (nós); e centenas de milhares de pessoas pelo mundo leram aquilo. E eu tenho a oportunidade de pegar o trabalho de tanta gente talentosa, adicionar a ele o pouco que sei fazer e torná-lo disponível para outras dezenas de milhares de pessoas. Isso é maravilhoso, é giganticamente mais que “uma forma de pagar as contas”.
Eu sei que só posso pensar assim porque não preciso me preocupar muito com as tais contas. Se estivesse sob risco de ser despejado, por exemplo, trocaria essa oportunidade de fazer algo maravilhoso por oito horas apertando parafusos, se pagasse melhor. Não é o caso. E dane-se o coitadismo nacional. Sinto muito se tanta gente faz coisas que odeia porque não tem alternativa (ou, em muitos casos, se acomodou demais pra procurar alternativas). Eu tenho a chance de trabalhar com algo de que gosto muito e acho extraordinário.
Eu trabalho com mangás. Paga mal, tem inúmeros problemas, nem sempre é divertido. E eu gosto muito do que faço.
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