Alguns cruzamentos têm uma placa que diz isso:
AGUARDE O VERDE
SEMÁFORO DE TRÊS FASES
Eu passei inúmeros anos perguntando o que era um verde semáforo de três fases, e por que usavam uma construção tão estranha, ao invés de “Aguarde o semáforo verde de três fases”. Não entendia por que só o verde tinha três fases, ou por que esse de três fases era diferente dos outros verdes de menos fases, que também deviam ser aguardados.
Um dia percebi que os cruzamentos que tinham essa placa tinham também semáforos de pedestre. Racionalizei que o verde dos pedestres contava como uma fase do verde geral da entidade semáforo, que designava todo o conjunto do cruzamento. E, como o semáforo de pedestres não tem luz amarela, fazia sentido que fosse o “verde semáforo de três fases”; se o de pedestres tivesse amarelo, não precisariam especificar que era o verde, mas nesse caso o amarelo tinha uma fase a menos. As três fases do verde, mencionadas na placa, seriam “principal aceso, de pedestres apagado: veículos passam”, “principal apagado, de pedestres aceso: veículos param, pedestres passam”, “ambos apagados: todos param”.
Essa explicação exageradamente complicada foi a única que fez algum sentido pra mim. Foram mais alguns anos tendo certeza de que era exatamente isso que a placa dizia, que o verde tinha essas três fases. Só não entendia por que os criadores de placa usavam um sistema tão difícil de entender; afinal, era um semáforo, aquela coisa que aprendemos desde o Prépri-Mário que significa “Pare, Atenção, Siga”.
“Deve ser alguma coisa como o jazz, que eu vou entender direito quando ficar mais velho”, eu pensava. E devia ser algo de fato muito complicado. Na época, algum livro meu tinha uma coleção de placas de trânsito em algum apêndice, junto com bandeiras de inúmeros países e outras curiosidades que tanto fascinam as crianças. Eu sabia todas as placas, acreditava entender muito bem o que cada uma significava (exceto o “Dê a preferência”, que achava ser algo como “Escolha qual via tem a preferência” e me parecia perigosíssimo, “como o outro motorista vai saber qual eu escolhi?”, mas depois eu aprendi o que era “preferência” e entendi). E não havia menção ao tal verde semáforo de três fases. Devia ser algo realmente muito complicado, que só era explicado nos níveis superiores das auto-escolas (CFC ainda era cloro-flúor-carbono – e existia MacSalad). Eu até sentia algum orgulho por ter descoberto sozinho quais eram as três fases, e que o semáforo de pedestres fazia parte do conjunto mas não tinha amarelo, etc, mas mesmo assim aquela dúvida me perseguia, e eu ficaria muito feliz de saná-la oficialmente, com explicações adequadas, batessem ou não com minhas deduções.
Aí um dia eu vi uma placa dessas que já estava meio enferrujada, descascando; acho até que alguém tinha usado pra prática de tiro, pobrezinha. Algumas letras estavam meio apagadas, vários pontos ao redor da frase estavam manchados. E calhou de uma dessas manchas estar no lugar exato pra transformar a frase nisso:
AGUARDE O VERDE,
SEMÁFORO DE TRÊS FASES
Ah…
Não estou embelezando a história, foi exatamente o que aconteceu. O verde semáforo de três fases me perseguiu durante anos, e por mais que eu perguntasse, ninguém conseguia entender minha dúvida. Pra todo mundo era óbvio. “‘Aguarde o verde’, oras.” Tinha certeza que só repetiam a informação simplificada por ainda não me acharem capaz de entender o verde semáforo de três fases.
Mas não, faltava uma vírgula. Eram duas coisas separadas. Em duas linhas, todos as viam como duas frases distintas. Eu via uma oração. “NÃO FECHE O CRUZAMENTO” e “FISCALIZAÇÃO FOTOGRÁFICA DE VELOCIDADE” eram placas em que uma oração ocupava duas linhas, não via razão pro verde semáforo de três fases ser diferente. Mas foi necessário que chuva e vento e sol e granizo e tiros arrancassem pedaços da placa até aquele pedacinho providencial cair pra dar espaço à vírgula que deveria ter estado lá desde o princípio.
Esse post não é pra dizer “vejam só como a pontuação correta é importante” – embora, de fato, diga. Talvez seja mais pra ilustrar o quanto o óbvio pode não ser óbvio pra todos (como eu ia saber que eram duas frases, se os outros exemplos evidenciavam o contrário?). Ou ainda pra mostrar como alguém pode dar voltas incríveis pra explicar algo que não entende por faltar um conhecimento básico, ou pela informação estar incorreta (deixe a bola de neve correr e eventualmente o verde semáforo de três fases jogaria raios do céu pra forçar as pessoas a andar mais devagar e não passar no vermelho).
Mas deixando tudo isso de lado, independente do número de fases, não é óbvio que é pra aguardar o verde?
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É óbvio que é pra aguardar o verde, mas eu custei a aceitar qual dos verdes era pra aguardar, se era pra aguardar no verde, se era o meu verde ou o do outro, putz. Ainda mais que uma pessoa, muito burramente, me disse uma vez que tinha azul também.
Aliás, “fases” é uma coisa difícil sozinha de entender. Devia ser “cores”.
Mas saber e esperar que seja usada a pontuação faz dos mais instruídos mais despreparados pro mundo. Eu já passei por situações assim.
Eu tive uma professora que dizia que o óbvio é a coisa mais difícil de explicar. Às vezes é difícil de entender também, afinal.
Prépri-Mário! XD
(Tem coisa mais óbvia e mal entendida que isso? XD)
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