“You expect me to account for opinions which you choose to call mine, but which I have never acknowledged.”
Posted by lorneau in UncategorizedUma vez fui fazer um trabalho de escola na casa de uma amiga. Não lembro do que era, mas lembro de montes de papéis espalhados pela mesa, e nós tentávamos colocá-los em ordem para reescrever todo o texto. Provavelmente um daqueles trabalhos em grupo em que alguém fica encarregado de “juntar tudo no fim” e acaba tendo que fazer a coisa toda.
Mas isso não estava rendendo. E não era por nenhuma razão interessante (tenho certeza que já imaginaram alguma). Não, o texto não saía do lugar porque essa amiga mal abria os olhos, mantinha a cabeça abaixada a maior parte do tempo, e não conseguia concatenar mais do que duas ou três frases de cada vez. Condensar dúzias de páginas em algo apresentável estava fora de questão.
Eventualmente perguntei o que estava errado, meio receoso de que ela dissesse ser resultado de garrafas viradas na noite anterior, ou um começo de gripe forte, ou uma noite passada em claro por um problema mais sério qualquer – essas coisas que não têm solução rápida. Precisávamos fazer o trabalho naquela hora, não podia esperar que ela tivesse uma boa noite de sono ou se curasse de uma gripe ou qualquer outra coisa que leva tempo demais.
Fiquei bastante aliviado, no entanto, quando ela disse que era “uma dor de cabeça muito forte”. “Ora”, pensei, “isso não é novidade, há dezenas de remédios pra isso, o caso se resolve, terminamos o trabalho e ela vai dormir pra deixar o corpo fazer a parte dele”.
“Tome algum remédio, então. Não tem razão pra ficar aí agüentando uma dor tão forte.”
Essa frase era absolutamente básica pra mim. Tive a sorte de não herdar esses genes, mas tenho inúmeros parentes que têm dor de cabeça com certa freqüência. Mas basta um analgésico e temos novamente um membro produtivo da sociedade, ao menos por algumas horas. Dizer “tome um remédio” quando alguém se queixava de dor de cabeça era, pra mim, pouco mais do que uma formalidade, um “vá fazer o que tem que fazer, eu espero aqui”.
“Vocês, alopatas, tomam remédio pra tudo…”
Jamais imaginaria uma resposta dessas. Não só ela se recusava a resolver o problema – que estava claramente impedindo o avanço do trabalho, e tornando minha presença ali não só inútil, mas um incômodo pra ambos -, ela nos separou em grupos opostos e qualificou o meu lado como “errado”.
Eu nem sabia o que era um alopata. Claro, deduzir foi questão de segundos: eu sabia o que era homeopatia, tive colegas anos antes que tomavam “bolinhas”; dada a situação, devia ser o remédio não-bolinha. Mas mesmo esses colegas jamais se recusavam a tomar um remédio de verdade quando necessário.
Dessa vez, era diferente. Era alguém que se colocava radicalmente contra algo que todos ao meu redor sempre tiveram como normal. Mas, pra ela, isso era errado. Todos ao meu redor estavam errados. Eram “alopatas” que “tomavam remédio pra tudo”. Como se eu tivesse oferecido um anti-depressivo pra ela se animar, ou outra coisa pra melhorar a concentração. “Aqui, toma essa Ritalina pra gente terminar isso logo.” Nada, eu sugeri que tomasse um analgésico pra não ficar sofrendo! Mas não. Eu era um alopata – palavra formada com o sufixo ~pata, o mesmo usado em sociopata, psicopata, etc, que designa “doente”. Mas eu estava perfeitamente bem, enquanto ela nem conseguia manter os olhos abertos.
Não lembro o que aconteceu em seguida. Esse foi um daqueles poucos momentos em minha vida que são tão chocantes, que o cérebro coloca toda a energia disponível em entender a situação, e não sobra nada pra armazenar o que está havendo ao redor. Mas lembro que, por volta de meia-hora depois disso, aceitamos que era perda de tempo e eu fui embora, o trabalho ficaria pra depois.
(A amizade já vinha cambaleante, uns meses depois cada um foi pra um grupinho diferente e a interação passou a se limitar a “bom dia”. Não sei dizer quanto impacto teve esse evento nisso, acredito que era inevitável. E isso não é importante aqui.)
Foi a primeira vez que fui classificado como parte de um grupo antagônico e “errado” por algo que me era completamente natural. Sei que todo preconceito é assim, que as pessoas vivem isso o tempo todo, que eu devia estar feliz por só ter sofrido apenas esse evento, etc. Não vem ao caso. O que me impressionou foi isso surgir de um remédio pra dor de cabeça – o que continua sendo perfeitamente natural pra mim. Me pergunto se ainda hoje, quando ela tem dor de cabeça, continua só conseguindo ficar de olhos fechados.
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