“You know, I used to think it was benign neglect, but now I see that you are intentionally screwing me.”
Posted by lorneau in UncategorizedMoro em um bairro com muitas árvores. Sei que há bairros com mais árvores, com árvores frutíferas, etc, mas esse em que moro tem bastante. A maioria é aquela árvore que não dá nada, só folhinha pequena que faz uma sujeira do cão e dá um trabalho terrível pra varrer. Seja como for, tem bastante árvore.
Freqüentemente isso se torna um problema. As árvores chegam aos fios e ameaçam rompê-los; suas raízes se espalham, crescem demais e quebram calçadas e muros. O problema mais sério, claro, é cupim, que em algumas quadras tomou todas as árvores: eles se espalham pelas raízes e, mutantes que são, quando a árvore já não os satisfaz, atacam as fundações das casas, o próprio concreto. Só em Star Trek vi algo parecido.
Todos os males, no entanto, não impossibilitam a convivência com as árvores. Quem loteou o bairro o fez de forma inteligente: a maioria das casas tem, na frente, de um lado o portão, do outro, uma árvore na calçada. Uma rua inteira assim fica muito bonita, e isso contribui, obviamente, com a permeabilidade do solo, ou seja, deixa um espaço de terra, sem cobertura de concreto, por onde a água da chuva pode ir embora pacificamente, sem depender de bueiros. Muitas casas do bairro têm também jardins, o que melhora ainda mais a permeabilidade.
Mas nem tudo corre tão bem. Quando os galhos ameaçam fios elétricos, ou mesmo os alcançam, não se pode simplesmente podá-los. É necessário pedir para a prefeitura enviar uma equipe especializada. Tudo bem, os fios são perigosos. Entretanto, quando os galhos ameaçam qualquer outra coisa, como o telhado da própria casa, também é necessário chamar a prefeitura. Nem é permitido ao morador podar a árvore por si só, mesmo que ela esteja prestes (em termos arbóreos) a abrir um teto solar na sala.
A coisa é ainda pior quando a árvore precisa ser removida completamente, como no caso de infestação por cupins. O morador não pode fazer nada com a árvore, por mais condenada que esteja. Tudo bem, questão de segurança. Mas se está condenada, é porque há risco de cair na próxima tempestade e aí, sim, sem a menor dúvida, causar no mínimo um transtorno, com sorte apenas perdas materiais, e possivelmente uma vítima fatal. A árvore de um vizinho foi declarada condenada um tempo atrás, e ele pediu que fosse removida. A equipe da prefeitura veio mais de dois anos depois.
E, claro, remover a árvore por capricho, jamais. Uma árvore no seu quintal, não condenada, no que depender da prefeitura, permanecerá no seu quintal para sempre. Há aqui na região um tipo de coqueiro que dá uns coquinhos amarelos bem pequenos. São árvores enormes, de folhas enormes. Quando uma folha daquelas cai, no fim de seu ciclo natural, tem potencial assassino similar ao de uma jaca. Os coquinhos no chão vez ou outra criam cenas dignas de Sessão da Tarde: redondos, durinhos, quase bolas de gude naturais, forrando o chão, à espera de que alguém os pise com um pouco menos de atenção, abra um espacate e se estabaque no chão. Antes de cair, os coquinhos atraem umas borboletas laranjas meio sem graça que dão origem às terríveis e nojentas lagartas laranjas e pretas que devoram qualquer outra planta que estiver por perto. Um coqueiro desses em casa é um inconveniente tremendo, um perigo constante – mas lá ele ficará até que caia por si só. A prefeitura não o corta e não permite que o morador o corte.
Aí eventualmente uma casa da região é colocada à venda. Pouca gente hoje em dia tem interesse numa casa grande, com jardim, quintal. Poucos têm dinheiro pra uma, muitos preferem apartamentos menores (muitas vezes mais caros), segurança, bláblá. Uma incorporadora qualquer compra a casa e, entropia institucionalizada que são, coloca-a abaixo. Se não podem fazer um prédio no lugar, fazem algo ainda mais idiota: dividem o terreno no meio.
É isso o que aconteceu aqui perto, já duas vezes. Uma casa bonita, com garagem, quintal, jardim, é posta abaixo pra virar duas raias olímpicas: menos de cinco metros de frente, uns trinta de comprimento. Não cabe uma casa que presta nesse espaço. Fazem dois sobradinhos colados. Sinta-se num apartamento, escute tudo o que o vizinho faz no quarto ao lado! Não têm jardim, não têm quintal – não tem um metro quadrado que não seja concretado, ladrilhado. Na garagem cabe um carro, se não for muito grande. Se duas pessoas da casa querem ter poder de ir e vir mecânica e independentemente, é bom que compre uma moto, pra ficar no cantinho, ou um Smart, pra ficar na rua sem atrapalhar o portão do vizinho.
Mas o pior de tudo… O terreno com a casa bonita com jardim e árvore do lado vira dois muquifos e, veja só, um tem uma árvore na frente! A prefeitura resolve em questão de dias – afinal, o morador precisa ter direito de entrar de carro em sua própria casa, e aquela árvore não tinha nada que estar ali quieta há setenta anos! Basta que o construtor se comprometa a plantar outra árvore em algum outro lugar qualquer, e tudo certo.
Uma praça qualquer num lugar remoto ganha um galho enfiado na terra, um tronquinho de menos de cinco centímetros de circunferência, com uma grade ao redor, com o nome da empresa. Maior parte dessas arvorezinhas raquíticas não vira nada – morre, é arrancada, derrubada, não se adapta à terra. E mesmo que sobrevivam, e daí? São arvorezinhas raquíticas que precisarão de décadas pra ter relevância, e isso em alguma praça remota e irrelevante por si só. Enquanto isso, o bairro em que moro perdeu uma árvore que provavelmente precedia a Segunda Guerra, os pássaros perderam mais um lugar pra fazer ninho, alguém perdeu a sombra do fim da tarde. Tudo porque fizeram um maldito cortiço de oito cúbitos de frente onde havia uma árvore!
Proteção ambiental, patrimônio, impermeabilização do solo, necas, dane-se. Quando a casa enche d’água, culpa da prefeitura, que não limpou os bueiros. A culpa é, em parte, da prefeitura, sim, mas não pelos bueiros. É por permitir que um terreno seja dividido pra uma metragem tão ridícula e descabida e que uma árvore seja derrubada por isso.
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