I wrote the “Is there any in this rout with authority to treat with me?” post one night when I should have been asleep. Just a nice idea that I wanted to get out there before I forgot it. And that single post has had more views than all the other posts combined in the history of the Vineyards. I figured for this month (since I write once a month, for major shame) I would comment on that fact. But for two weeks I was (literally) an ocean away from my computer and any intention of dealing with this blog. “That is what I will write about when I get back, then!”, of course, two weeks in Europe warrant at least a paragraph. But exactly 28 hours after landing back in this country I was already at work. Granted, I was working on my favorite volume of Claymore, so I had no complaints, but that threw me back into the routine far too quickly. With all the catching up to be done and a sudden increase in work and decrease in time in general, and with the actually useful time in my July being only two weeks, the result is that I now have half an hour before the month is over to post something. And this is all I can do right now, as I am in the middle (figuratively; actually, first 20%) of a freelance job that I was told “has no priority, no rush”, but “the sooner, the better”. And I must be up very early tomorrow.
With that said, I sincerely apologize. I will have something proper next month – or, as manga authors say, “I will fix it in the tankobon”. Back to work for now.
Sent from my iMsorry.
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A few days ago, Ruby was telling me about e-mails she gets from two coworkers. “Sent from my iPhone.” or “Sent from my BlackBerry.”.
(Today I saw “Sent from my iPad.”)
So I suggested she added to her own e-mail signature something like “Sent from my ivory tower”. If you are going to show off or use your phone as a symbol of status or “lifestyle”, might as well cut the technological middleman. “I need no gadget to show how much better than you I am.” This last line I probably kept to myself, but I am sure she could sense it just the same.
She agreed it was an interesting idea, and suggested “Sent from the highest throne of Mordor”, to which I added “‘and relayed by The Mouth of Sauron’, just to confuse people who never read the book or watched the Extended Version”.
It sounded fun, so lately I have been thinking of other such “Sent from” lines with which to end e-mails. Here are some I can remember:
Sent from my Summer retreat in the Mediterranean.
Sent from my secret space station.
Sent from my PSP.
Sent from my common desktop computer.
Sent from a potato running Linux.
Sent from my local post office.
Sent from the future to warn you.
Sent from my Altair 8800.
Sent from a parallel universe where everyone wears goatees.
Sent from the quarantine zone.
Sent from my secret-agent wristwatch.
Sent from my hacked NES.
Sent from Area 51.
Sent from my fully armed and operational battle station.
Sent from my Casio Electronic Organizer.
Sent from my Wii.
Sent from the last refuge of mankind in this continent. Please send help.
Sent telepathically.
I never sent this e-mail. This is all happening inside your head.
Sent from my Apple Newton.
SENT! FROM! SPARTAAA!
Sent from my Windows ME computer.
Sent from Hogwarts Castle’s owlery.
Sent from my office, three meters away from yours.
Sent from my Sega Mega Drive.
Sent from my Enigma machine.
Sent from your iPhone when you forgot it on your desk.
Sent from right behind you.
Sent from my DeLorean.
Sent from my ColecoVision.
Sent from the Umbrella Corporation Headquarters.
Sent from a galaxy far, far away, a long time ago.
Sent from my Nokia N-Gage.
Got any ideas you would like to share?
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O que torna tudo isso chato é a falta de algo desconhecido inerente a cada um. E é exatamente isso que tantas histórias adicionam ao ser humano pra torná-lo mais interessante. Veja só:
Em Star Wars, a Força. Se prestar atenção nos filmes, verá que ela é usada de fato só umas cinco vezes em toda a trilogia clássica. Yoda tirando o X-Wing do pântano é a maior demonstração de uso da Força nos três filmes originais, e nem é tudo isso. Serve também pra fazer gente de mente fraca aceitar sugestões verbais (e não é nem controle da mente, é um simples “não são esses os droides que estão procurando, usted puede confiar en mi”). E se você é forte na Força seu corpo desaparece quando morre. Mesmo assim, a Força está lá e é respeitada, os que a têm percebem outros que a têm, e em que grau, e se há algo de errado no universo (“I sense a disturbance in the Force”). Yoda é um velhinho verde engraçadinho, mas tem um enorme controle da Força, a audiência acredita nisso e o respeita. Darth Vader é um aleijado, mas nunca se viu ninguém em que a Força fosse mais forte, a audiência acredita e respeita. Por aí vai. (E midchlorians não existem.)
Os Cavaleiros do Zodíaco têm o cosmo. Não lembro a explicação exata, acho que dizia que cada pessoa tinha dentro de si um universo e podia usá-lo pra fins extraordinários, ou usava o próprio universo, qualquer coisa assim. O que importa é que eles tinham uma fonte de poder inerente e, de certa forma, desconhecida. “Estou sentindo um cosmo imenso e muito agressivo!” e esse cosmo era usado pra aplicar mil socos à velocidade do som, criar feixes de luz destrutiva, mover o ar a velocidade extrema pra criar barreiras invisíveis, congelar coisas a níveis próximos do zero absoluto, fazer água fluir ao contrário e até queimar uma folha que cai de lugar nenhum no meio de uma montanha onde só tem pedra. Sem o cosmo, seriam 88 adolescentes brincando de Clube da Luta.
Dragon Ball, se não me engano, tinha o ki, que era mensurável mas não fazia a menor diferença, porque todo mundo que importava tinha “mais de nove miiiiil!”, e voava e criava genkidamas.
Os ninjas em Naruto têm chakra, que transformam em fogo, água, vento, madeira, disfarces, clones, armas, barreiras, bombas, e o que mais convier. O protagonista tem “um chakra enorme, quase infinito”, que vem da fera mítica presa em seu corpo, mas todos os outros têm seu tanto de chakra que pode usar N vezes e que se recarrega em X horas (onde N e X são “roteiro” e “roteiro”, respectivamente).
(E acho que acabei de descobrir de onde veio o nome da banda “NXZero”. Olha o resultado do tédio numa aula de matemática, que horror.)
Inuyasha tinha “energia sinistra”, que, se me lembro, era uma adaptação de youki (“you” de “youkai”, “ki” do mesmo ki de Dragon Ball), que também existe em Claymore e tem um “limite de liberação” antes que a guerreira “desperte” e aí a youki é multiplicada, e cada uma tem um “tamanho” determinado aparentemente fixo, mas não determinado, que é pra sempre poderem tirar um pouco mais, como Seiya e seu cosmo. Bleach tem “pressão espiritual” e eu nem sei o termo original, mas é a mesma coisa.
Comecei com Star Wars justamente pra não dizerem que só falei de mangá, mas o Ocidente tem tanto quanto, mesmo não sendo tão óbvio. “Mana” é quantificada em RPG porque tudo é quantificado, mas é uma força inerente. O Professor Xavier tem o mesmo tipo de poder que Jean Grey, mas é “mais poderoso”; até que vem a Phoenix e é “muito mais poderosa” que Xavier. Qualquer um deles poderia governar o planeta com o poder que tem. Aliás, me lembro de uma visual novel (nada a ver com Marvel) sobre isso: o protagonista tinha o poder de controlar as decisões de qualquer pessoa, e se tornava presidente com isso. Pra combater o tédio, usava esse poder pra criar partidos de oposição ou grupos terroristas pra tentar matá-lo. Adoraria lembrar o nome disso.
Até mesmo He-Man tem algo desconhecido e inerente. Ao assumir que sua força é mágica, e não apenas resultado de treinamento físico, ele sempre pode fazer um pouco mais: num episódio empurra uma rocha enorme, no seguinte toda a montanha, depois cava ao redor e embaixo de um lago e o levanta inteiro no ar. Sempre pode ir um passo além.
Acredito que o mesmo vale para Superman, embora não conheça os quadrinhos muito bem; não acho que em nenhum momento, sem influência de kryptonita, mágica, falta de sol, o que seja, Superman tentou erguer ou empurrar algo e disse “não dá, pesado demais”.
E aí temos o mundo real.
Vejo três tipos de poder no mundo real: força física e habilidades relacionadas (pra destruir ou construir); habilidades com ferramentas e armas (“Tony Stark fez uma dessas numa caverna com sucata!”, e, por pior que sejam os exemplos, um fuzil dá ao portador certo poder); e o que lhe confere a sociedade.
Nenhum deles é inerente e desconhecido. Os dois primeiros são inerentes, mas não têm nada de muito especial, são limitados e requerem anos de dedicação e alguma sorte pra ser notáveis. O terceiro não é inerente.
Um presidente tem poder porque a sociedade o colocou lá e disse que o presidente tem poder. Ok, democracia, mas o mesmo vale para um ditador: ele tem poder porque alguém o colocou lá e disse que tem poder, mas se seu grupo de capangas (ou o exército, ou o que for) decidir que não o quer mais, acabou, ele não é mais nada. Pode ser capaz de erguer um carro compacto ou acertar uma bala num mosquito a quinhentos metros: basta que o grupo ao redor diga que não, e o poder dele desaparece.
Dinheiro, então? Confere poder enquanto a sociedade disser que sim. Peguemos um hipotético explorador que gosta de andar sozinho por aí. Um dia ele cai numa caverna e não consegue sair; cai a noite e começa a esfriar, ele sabe que pode morrer de hipotermia. Mas ele trazia consigo uma maleta cheia de dólares! Grande coisa. Sem a sociedade ao redor pra conferir aos dólares algum poder, eles são papel pra fazer fogo. Os mesmos dólares não valeriam nada se o explorador se deparasse com índios de uma tribo remota da Amazônia que nunca teve contato com a civilização. No apocalipse dos zumbis, o controle acionário da Microsoft vale menos que uma arma de fogo.
Falta algo inerente e desconhecido às pessoas, algo que não dependa de anos de treinamento (força física, artes marciais), de fatores externos (exo-esqueleto) ou da colaboração de outros (dinheiro). Por isso tantas histórias se focam nisso, personagens com algum tipo de poder são populares, adolescentes se voltam pra wicca e outras “magias” e simpatias, pessoas jogam RPGs offline e online, alguns rezam por milagres: porque a capacidade humana – não, a própria realidade! – é limitada, raramente vai além do óbvio. E quanto mais imaginamos o extraordinário, mais chato se torna o real.
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Não lembro da primeira redação que escrevi na escola. Deve ter sido no Prepri Mário, seja lá como isso é chamado atualmente.
Lembro de uma vez em que foram dadas algumas palavras que deveriam ser usadas no texto. Era mais ou menos assim: “escola”, “excursão”, “zoológico”, “animais”, “preferido”, “leão”, “professora”, “melhor”, “passeio”, “vidas”. Se eu já conhecesse na época o conto da flor vermelha com caule verde, teria ficado muito mais revoltado do que fiquei. Mas eu ainda não era rebelde, então escrevi o raio da historinha piegas e sem graça onde a escola organiza uma excursão ao zoológico e de todos os animais o preferido da turma é o leão e quando voltam a professora diz que foi o melhor passeio de nossas vidas. Que vidas vazias! Pior, eu achei que poderia dar um pouco de drama ao fim, então escrevi o “Foi o melhor passeio de nossas vidas” grandão, as letras de mão ocupando duas linhas – e isso foi tão penoso, tão difícil, tão tenso, que esqueci de cortar o F inicial e a maldita professora da história acabou dizendo “Toi o melhor passeio”. Que direito essa professora babaca de uma redação que me cauleverdearam a escrever tem de dizer que uma ida ao zoológico toi o melhor passeio da vida de duas dúzias de estudantes primários!? E ela devia ser órfã, fez internato de freiras dos sete aos dezesseis anos, depois trabalhou dia e noite e fim de semana pra pagar o magistério, a pensão e juntar pro enxoval, e começou a dar aula nessa escola há um mês. Nunca foi nem na pracinha tomar um sorvete. E tem problema de dicção, a maledeta!
Eu odiei aquela redação. Odiei cada frase, cada personagem, cada animal do zoológico, cada erro que cometi – principalmente o Toi. E ganhei um “Ótimo”, que era melhor que “Bom”, só perdia pro “Excelente”. E todos acharam o máximo porque eu escrevi frente e verso da folhinha de redação, que tinha mais ou menos metade da altura de uma folha de caderno comum, enquanto muitos mal preencheram a frente, não conseguiram usar todas as palavras dadas. Como!? Era praticamente um exercício de preencher lacunas!
Fosse uns dois anos mais tarde, eu já era mais criativo e rebelde, e já conhecia o conto da flor vermelha com caule verde. Teria usado as palavras pra escrever uma redação em que, durante uma excursão escolar ao zoológico, um dos alunos desaparece; encontram o corpo na jaula do leão, chamam um detetive pra investigar, ele descobre que a professora era noiva do pai do aluno antes de começar a dar aulas mas ele engravidou outra mulher e teve que se casar às pressas e aquele menino era resultado disso, ela ficou pirada e virou professora e seduziu o diretor da escola pra poder dar aula na classe do seu alvo e esperou o momento certo onde poderia fazer tudo parecer um acidente, mas não imaginava que o tal detetive entraria no caso e descobriria tudo. Ela se arrependeria, confessaria, culparia o amor doentio e a traição do ex-noivo, e a história terminaria com o inspetor de polícia levando ela pra cadeia e comentando com o detetive que aquele “não foi o melhor passeio da vida dessas crianças, mas certamente será inesquecível”.
Pois é, naquela época eu jogava muito o jogo de tabuleiro “Scotland Yard” e, por isso, tinha um cloninho de Sherlock Holmes que encaixava em toda redação que escrevia. Não lembro o nome dele, mas o inspetor chamava, descaradamente, Lestrade, e fazia também o papel de companheiro bobo, porque eu não queria adicionar um Watson. Era bem mais fácil escrever historinhas policiais do que o sei-lá-o-quê que as professoras esperavam que os alunos escrevessem no primário. Um crime qualquer, um vilão (ou, mais freqüentemente, vilã) com excesso de auto-confiança, e um erro qualquer que passasse despercebido pelo equivalente do CSI mas não pelo detetive titular. Aí minhas redações ficavam com frente e verso – algumas até precisavam de mais uma folhinha! – e todo mundo achava o máximo.
Mais uns anos à frente, algum professor ou professora (sinceramente não me lembro) decidiu que os alunos deveriam escrever livros! Dividiu a enorme classe de então seis pessoas (colégio decadente) em dois grupos (“meninos” e “meninas”, veja só). O meu grupo (o dos meninos!) não fazia idéia do que escrever. Pens(ei)amos numa história baseada no primeiro Alone in the Dark – família se muda para uma mansão assombrada construída sobre um complexo de cavernas que chegaria até Cthulhu. Abandonamos essa e ficamos sem. Então desenterrei o detetive. Mas não poderia ser uma cópia descarada de Sherlock Holmes, então o modifiquei bastante: virou um policial de meia idade, gordinho, solteiro, de bigode, com medo de altura e mania de organização. Até hoje me pergunto o que raios eu tinha na cabeça. Pra fazer a história render mais, os episódios do policial resolvendo o caso central eram entremeados por outros sobre sua vida cotidiana, às voltas com os vizinhos do prédio em que morava, tomando conta do poodle Arquiduque Fifi que a senhora gorda do andar de cima deixou enquanto foi viajar, etc. Não lembro muito bem da história. Lembro que ficou legalzinho, até, considerando a forma como foi feita, que foi baseada em redações infantis de duzentas palavras, e escrita em algo em torno de três semanas. No final ele superava seu sedentarismo e sua fobia numa perseguição pelos telhados da cidade.
O livro das meninas era meio narrativa, meio manual, sobre uma adolescente às voltas com a primeira menstruação, o primeiro namorado (e o primeiro chifre), as dúvidas sobre quando ter a primeira relação sexual, as brigas com a mãe por voltar tarde da balada… “Vamos fazer nossa própria versão de ‘Confissões de Adolescente’?”. Tiraram dez. Eu me embrenhei no grupo como revisor e editor (ou “o único que sabia mexer no Word e tinha impressora”) e compartilhei a nota.
Aí veio o que na época chamavam de ginásio e colegial e praticamente não havia mais redação narrativa. Escrevíamos artigos, reportagens, análises, ensaios, um monte de coisa abstrata, mas inventar e contar histórias, nunca mais. Escrevia histórias de personagens de RPG que nunca eram usados (Dá pra acreditar? Nunca consegui jogar RPG. O universo sempre conspirou contra.), ou pra concursos nos MMORPGs que jogava. Dessa época, lembro de um texto sobre “alunos desinteressados”… Esse foi no braço, foi um custo escrever algo abstrato quando os exemplos concretos estavam logo ao meu lado. Teve outro sobre “o ato de escrever” que saiu completamente no piloto automático. Eu gostava de contar histórias, nunca havia parado pra analisar o processo de contá-las.
Na faculdade, nunca esperei que me pedissem pra escrever narração alguma. Uma vez uma professora pediu um texto sobre a Guerra no Iraque, que estava começando. Eu fugi do lugar-comum e escrevi que o mundo é um lugar melhor sem uma ditadura promovendo limpeza étnica. A professora me deu uma nota baixa qualquer – sei lá, 4 – porque eu não usei as palavras-chave que ela queria (mas não disse antes): “invasão”, “petróleo”, “roubo”, “soberania”, “massacre”. (Eu queria estar inventando isso.) Absolutamente não analisou o que eu escrevi, só se eu usei as tais palavras. Perguntei se ela conhecia o conto da flor vermelha com caule verde; a classe toda riu, concordante, mas ela não conhecia.
Em todo caso, faz tempo que não escrevo narrativas. Nunca mais me pediram na escola, o universo continuou me impedindo de jogar RPG, larguei a vida de MMORPG. Mas não disse tudo isso pra anunciar que vou lançar meu primeiro romance. Nem ao menos vou dizer que vou tentar escrever um conto de vez em quando. Nada disso. Por enquanto, eu só queria contar essa história, mesmo.
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O anime “Shoujo Kakumei Utena” precisava preencher 39 episódios com uma história que, no mangá original, acabava em seis volumes. Algumas soluções que encontraram foram ótimas, e conseguem até mesmo deixar algo claramente repetitivo bastante tolerável, até agradável. Os elevadores sobem e descem de forma idêntica em dez episódios seguidos, mas estamos tão entretidos tentando decorar a repetição quase aleatória de “mokushi kushimo shimoku kumoshi moshiku shikumo”, ou procurando a pequena variação no texto do ovo e da galinha, ou prestando atenção no quadro da lagarta e da borboleta, que nem percebemos.
Os primeiros dez episódios têm duelos de espadas. Há um arco mais pacífico e, mais tarde, outros seis ou sete têm duelos de novo. Todo duelo tem uma música de fundo, em japonês com eventuais palavras em latim ou inglês no meio, cantadas por um coral. Essas músicas são outra ferramenta para esconder a repetição. Lembro que, antes mesmo de acabar de ver o primeiro arco de episódios, eu já tinha todas essas músicas, e minha favorita entre elas era “Spira Mirabilis”, do episódio seis, se não me engano.
Muitos episódios depois, Spira Mirabilis reaparece, em versão mais floreada. Quando percebi, fiquei todo orgulhoso. “Minha música favorita é a única que ganhou arranjo novo e voltou pro anime!” Minutos depois me achei um idiota. “E o que isso importa, pra mim? Qual é a razão desse orgulho? Eu escolhi como preferida a mesma música que algum produtor? Eu escolhi a ‘certa’, completamente por acaso, e ‘dei sorte’? Ou escolhi a que de fato tinha mais qualidade do que as outras, e o arranjo novo era só questão de tempo?” De qualquer forma, percebi que me orgulhar de minha favorita ganhar arranjo novo era absurdo, eu não havia influenciado aquilo de forma alguma; ou era puro acaso, ou algo já direcionado.
E se fosse pão? Eu gosto de pão. Se eu andasse com uma camiseta com um grande pão francês estampado, me achariam no mínimo estranho. Mas vamos lá, houve uma grande seca hipotética em certo país e a ONU vai enviar alimentos. Estavam em dúvida entre pão, arroz e batata, e no final escolheram pão. Vitória do pão! E dá-lhe pão, e dá-lhe pão, olê-olê-olá!
Mas que vitória do pão é essa? Se o pão foi escolhido, ou era a opção mais lógica (havia trigo por perto, era mais barato que transportar arroz, resistia melhor ao clima, etc) ou alguém achou que pão seria mais legal (era fã, dono da padaria que forneceria, etc). O fato do carboidrato de minha preferência calhar de ser o mesmo da ONU pra esse caso não é motivo de orgulho.
Por outro ângulo, eu gosto de pão e digo que é saudável, insisto que todos devem comer pão (e, na falta, brioches, mas de preferência pão). Aí a Organização Mundial de Saúde publica um estudo dizendo que pão é o que há, mesmo, imbatível, melhor coisa depois da torta de Smurfamora. Talvez aí eu me permitisse algum orgulho; afinal, minha opinião leiga, sem qualquer base científica e fruto de nada além de gosto pessoal foi corroborada pela OMS (WHO é muito mais legal, diz aí). Seria um orgulho do tipo “olha só, chutei certo” que surge quando vamos bem naquela prova onde “só caiu aquele único capítulo que eu não estudei”.
Seja como for, o orgulho por gostar de pão é vazio. É pura coincidência que a OMS recomenda. É pura coincidência ou conveniência que a ONU distribui no Hipotetistão. O mesmo vale pra Spira Mirabilis: talvez ela reapareça por ser a preferida da maioria dos fãs de Utena, então seria natural ganhar arranjo novo; ou apenas calhou de eu gostar da mesma música que o produtor musical; ou o compositor fez dois arranjos, mesmo; ou ela foi sabidamente feita pra ser melhor que as outras. Qualquer coisa do tipo.
Então apliquei esse pensamento aos times de futebol. “Nunca vou te abandonar”, “Orgulho rubro/alvi/tri/negro/color/verde”, etc, e percebi que é exatamente a mesma coisa. Você se orgulha quando seu time vence? Qual é a razão do orgulho? O que você fez pra se orgulhar, além de escolher um time ao acaso entre as opções disponíveis, ou um cujos jogadores mais agradavam, ou cuja história tinha mais vitórias? Como isso é diferente de eu escolher Spira Mirabilis ou gostar de pão?
Não é diferente. Não sei se Spira Mirabilis tem dois arranjos por coincidência, conveniência, etc; não sei se o pão estava mais perto ou mais barato. E não importa. Eu não fiz nada de que posso me orgulhar. Nem você, ao torcer por esse ou aquele time. Escolheu por algum critério subjetivo, ou mesmo ao acaso, e deu sorte; escolheu o mais forte e o fim era natural. Tanto faz, não influenciou nada.
Em resumo, se seu time ganhou, fique feliz, mas não orgulhoso. Orgulhe-se de suas próprias realizações. Gostar de pão e de Spira Mirabilis não é realização.
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